Análise | O perigo nas análises de videoclipes

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Por Jefferson Sousa
“Descubra quais são os segredos do clipe…”, “Entenda as referências do clipe…”. Vamos com calma, galera! A internet existe por aí justamente para o Creative Commons, ou, em ditado popular, “para quem quiser bulir” sim, mas, recentemente, o derivado da onda de vídeos de “reação” no youtube vêm gerando um tipo de conteúdo até certo ponto perigoso: o “entenda o clipe”.

 

Trazer um tipo de fundamentalismo – movimento literário de cobrar ou procurar regrar ações técnicas para dá ou não credibilidade a uma obra – para os videoclipes só tem enchido a internet de conclusões coletivas que, na maioria das vezes, leva ao ruído de fruição das conclusões individuais.

 

O vídeo This is America, do Childish Gambino, foi uma vítima recente dessa leva. Mas o enfoque aqui será uma outra canção do norte-americano: Feels Like Summer. No clipe em animação, diversas personalidades do universo do hip hop aparecem em diversos planos e ações, enquanto o Donald Glover caminha ouvindo música no fone de ouvido.

 

Feels Like Summer, para mim, é um ambiente de suspiro emocional onde o artista esteve em sua ótica de público e observador da música. Provavelmente para você ele diz algo diferente. Porém, como há muitos elementos e personalidades interagindo no resultado audiovisual, as opiniões que mais se assemelham foram criam uma especie de bolha do entendimento: recentemente, em entrevista coletiva com cópia publicada pela revista Essence, o próprio Donald Glover foi contrariado ao dizer que “não foi com essa intenção”, quando questionado sobre a aparição ou exclusão da representatividade de alguns músicos do clipe.

 

Trazendo para o Brasil, atravessando gêneros e tempo de carreira, do rap de Djonga e Baco Exu do Blues, da nova MPB de Rubel, ou até mesmo da MPB da terceira idade do Chico Buarque, todos vieram sofrendo por estes precoces “entendimentos coletivos”. Desde a tonalidade da voz de Chico, até como uma atriz sensualiza no clipe do Baco, aspectos são generalizados e reafirmados por detentores de muitos seguidores. Estas conclusões precipitadas vêm gerando desentendimentos muito maiores do que discordar da opinião alheia, já que, na época do “fake news é o que eu não concordo”, podendo baixar o desempenho da música do artista x ou y.

 

A crítica cultural – de cinema, de música, etc – caminha entre facilitar o entendimento que estrutura a obra e a opinião do autor, uma técnica e outra afetiva, respectivamente. Todavia, querer empurrar conclusões e, pior ainda, excluir qualquer outro ponto de vista, é um tipo de desserviço que devemos manter longe de nós, pois, no final das contas, é você, público individual, quem gosta ou desgosta, sente a tristeza, euforia ou alegria de ver ou ouvir um conteúdo artístico.

 

Em resumo, não deixem de aproveitar o que a música tem de melhor. O videoclipe, nas atuais condições sociais e culturais, tem expandido o espaço de fala dos artistas e gerado mais influencia e sensações. Nada mais justo do que ouvirmos e sentirmos tudo o que eles têm para dizer.

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