Análise | Tranquility Base Hotel & Casino

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Se existe um prazer em ser fã de uma banda por muitos anos ou parar para analisar o trabalho por ela construído ao longo da carreira é perceber o amadurecimento e modificação de estilo, influência, letra e melodia. Aqueles que buscam acompanhar um trabalho musical com aversão a mudanças limitam a possibilidade de descobrir como um artista pode ser multifacetado e enveredar por novas feições.

Sem sobra de dúvidas, mudança e versatilidade são duas características que permeiam o trabalho de Arctic Monkeys – e fica gritantemente mais evidente no último álbum da banda, Tranquility Base Hotel & Casino, lançado em 2018, cinco anos após o lançamento do disco AM. A mudança na sonoridade da banda é latente, demonstrando que os integrantes finalmente se lançaram no estilo e abraçaram as influências que já lhe rodeavam há tempos. Alex Turner, o vocalista da banda, colocou muito de si no álbum. É indubitavelmente um trabalho de Arctic Monkeys, mas, também, resguardando a individualidade de Turner.

Muitas são as experiências diferentes que impactaram o ouvinte do álbum: os sons de guitarra marcantes, sobressalentes e geralmente presentes o tempo todo nos outros trabalhos da banda são, na maioria das vezes, substituídos pelo piano e baixo, trazendo uma atmosfera levemente espacial, pós-apocalíptica e com influências do jazz. A produção eletrizante outrora realizada pela banda é substituída por uma calmaria mais intimista, em que é passada uma história e uma linearidade de uma obra que deve ser apreciada como um todo, sem as quebras e mudanças no findar de cada música. Ouvir TBH&C é mergulhar na atmosfera trazida e sequer sentir quando uma música acaba e a outra termina: são todas partes meticulosamente encaixadas de uma produção artística maior.

É importante ressaltar que o disco se preocupa, também, em narrar algo. É possível ver a já citada atmosfera pós-apocalíptica, questionadora do ônus da tecnologia e dos rumos da sociedade, trazendo como resultado uma obra de ficção científica que critica a realidade atual, as prioridades e a busca sedenta pelo entretenimento vazio – o que traz um contraponto com o próprio material do álbum, que não se joga no mainstream e abraça o diferente para entregar ao público as composições mais apaixonadas da banda.

é indubitável a mudança da banda e sua evolução, o que deve ser entendido pelo ouvinte

Algumas músicas mais dançantes como Four Out Of Five Tranquility Base Hotel & Casino compõem o álbum juntamente com a mais linear Batphone, exemplos de que a mistura de ritmos, influências, prevalência de novos instrumentos e o indubitável crescimento de Alex Turner como compositor entregam uma não óbvia, mas esplendorosa obra de arte.

Para os fãs que ansiavam por um álbum focado no rock indie mais elétrico que se via antigamente (algo que não era muito esperado, pela própria mudança de estilo latente da banda e de Turner e dos avisos da falta de obviedade no lançamento do novo CD), Tranquility Base Hotel & Casino pode ser uma decepção. No entanto, para aqueles que realmente admiram a construção do trabalho da banda e aceitam as novas propostas por ela trazidas, mergulhar nas paixões e no intimismo do álbum é sem dúvidas um presente.

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