MangaMax | Children of the Sea e a beleza do mar

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É fato que mangakas possuem uma versatilidade para construir histórias sobre os mais variados temas com profundidade única e peculiar. Seja um tema que verse sobre magia e ocultismo, seja sobre o cotidiano da vida escolar, seja sobre viagens no tempo, ou simplesmente sobre o mar e toda a sua riqueza que atiça a imaginação. A verdade é que sempre nos surpreendemos com a sensibilidade e a capacidade de provocar nossos sentimentos que os mangakas conseguem em suas obras. E é por isso que estreamos a MangaMax, mas claro que não só para mangás, envolvendo animes, manhwas e tudo o que for relacionado à arte sequencial oriental.

E para começar vamos, de fato, ao mar, onde nos encontramos com a obra reflexiva de Daisuke Igarashi: Children of the Sea – Vol. I.

 

Uma obra rica como o mar.

“Será que alguma coisa acaba mudando se enxergarmos algo diferente?”

Esse parece ser o pensamento que resume toda a obra do primeiro volume de Children of the Sea (Kaijuu no Kodomo), de Daisuke Igarashi, originalmente publicada entre 2005 e 2011. A história começa com Ruka, uma solitária menina, que deseja “voar” enquanto joga handebol no time da escola. E já começamos a simbologia daí, pois Ruka não quer simplesmente voar no jogo, parece que isso pra ela é como sair da realidade que a prende a uma vida isolada e rodeada de pessoas que não a entendem.

Entretanto, por seu temperamento considerado difícil, ela acaba impedida de praticar o esporte que tanto a liberta, e em seu vazio por essa perda, ela acaba embarcando em uma viagem que mudará sua vida. Ela acaba conhecendo Umi, um garoto que parece também “voar” no mar. Os dois logo de cara ficam amigos, e Ruka descobre que Umi tem um irmão, Sora, que também “voa” ao entrar na água. Enquanto vão se conhecendo, vemos que há um mistério indecifrável: o desaparecimento e morte de várias espécies de peixes em várias partes do mundo.

Daisuke Igarashi possui um traço irregular que mescla traços mais rabiscados com cenários precisos. Nas próprias palavras dele, ele não se preocupa com precisão ou exatidão, mas sim se a arte consegue criar a atmosfera desejada para passar a mensagem que se quer e provocar o sentimento que se almeja. Children of the Sea faz justamente isso, quando ao mesmo tempo em que vemos a mitologia envolvendo os irmãos Sora e Umi ser lentamente desvelada, vemos a vida e os conflitos de Ruka saírem do mar abissal e verem a luz da superfície e começarem a desaparecer, tal qual os espíritos do mar procurados pelos garotos.

O relacionamento dos três e o traço e escrita de Igarashi criam uma riqueza simbólica incrível.

Children of the Sea é uma obra caudalosa, parecida com ler uma obra de Jorge Amado ou ouvir O canoeiro, de Dorival Caymmi. É uma obra com toda o mistério e riqueza simbólica do oceano, e como as estrelas descem ao mar para conhecer seus espíritos. Dá quase para ouvir o cantar dos pássaros ou o bater das ondas nas pedras.

Com personagens como Jim, o responsável pelos irmãos, além de perguntas, conhecemos a canção das estrelas, e mesmo que pareça algo tão distante de nós, toca o nosso interior pela qualidade das frases ditas ao vento da praia e o andamento lento como uma vaga que se choca no coral, nas 320 do volume lançado pela Panini/Planet Manga. A obra de Daisuke e seu estilo, que o fizeram se tornar a lenda premiada que é, são mágicas em seu desenho de misturar o rabisco com composições mágicas, que beiram o fantástico da literatura. É algo para parar várias vezes o ritmo de leitura para observar a interação perfeita entre arte, ambientação e texto.

Às vezes, só desejamos ser encontrados na profundidade de nosso vazio.

Children of the Sea trata sobre a criação da vida, mas é sobre a vida em si e em como lidar com ela, com todas as suas variáveis, que na superfície parecem assustadoras, mas quando mergulhamos e a vemos melhor, ou se a enxergamos de modo diferente, vemos como ela pode ser maravilhosa.

Para essa primeira análise, deixo vocês com o programa Manben, famoso documentário encabeçado pelo mestre Naoki Urasawa (no próximo MangaMax, teremos o próprio), em que se mostra um pouco do trabalho de Igarashi, a quem Naoki considera o melhor desenhista do Japão no momento. As legendas estão em inglês, mas vale a vista.

O volume I de Children of the Sea está à venda, sendo uma publicação bimestral lançada em agosto. O mangá foi publicado em papel offset com capa fosca, uma edição que faz jus a Igarashi, em minha opinião. Ah, e em tempo, Children of the Sea vaia ser adaptado para um filme de animação, produzido pelo Studio 4ºC. Dá uma olhada no site oficial do filme, onde tem uma galeria de imagens animadoras sobre essa adaptação.

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