Análise | Maniac

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O que significa seguir em frente e se conectar com alguém? Essas duas coisas não são autoexcludentes; na verdade, são coexistentes quando se trata de superarmos nossos traumas e baixar nossas defesas para as tentativas da vida de entrar e falar conosco. A nova série da Netflix, Maniac, constrói uma mistura distópica dentro de um show imaginativo para nos mostrar uma aventura de autodescoberta e enfrentamento em busca de conexão.

A série, criada por Patrick Somerville, de The Leftovers, que escreveu todos os 10 episódios, e dirigida por Cary Joji Fukunaga, recentemente escalado para dirigir o próximo filme de James Bond, traz uma ambientação futurística ao estilo anos 1980, em que a tecnologia é parte de nossas vidas, você pode vender sua vida a um AdBuddy, na série, uma pessoa que acompanha você em troca de likes em anúncios, dito a grosso modo. A tecnologia está lá, mas as nossas vidas continuam miseráveis e solitárias.

Os solitários Annie e Owen são arquétipos perfeitos para a mensagem da série.

É nessa solidão que conhecemos Annie (Emma Stone) e Owen (Jonah Hill), dois jovens em seus 20 e poucos anos, que sofrem de traumas e vivem isolados de qualquer conexão com alguém. Annie amarga uma tragédia envolvendo sua irmã; e Owen é a ovelha negra de uma rica família (que conta com a participação estelar de Gabriel Byrne), que possui sua própria tragédia autodestrutiva, além de esquizofrenia. Os dois buscam uma saída para seus problemas e acabam se inscrevendo no programa da Neberdine Farmacêutica e Biotech, que promete curar todos os males interiores das pessoas ao final do teste.

Liderado pelo Dr. Robert Muramoto (Rome Kanda), pela Dra. Azumi Fujita (Sonoya Mizuno) e pelo Dr. James Mantleray (Justin Theraux), o experimento é direcionado para o computador GRTA. Os participantes precisam passar por três estágios em que, ao final, estarão curados de suas dores e sentirão nada além de alegria e contentamento. Parafraseando Owen, bom demais para ser verdade, não? Pois. As coisas começam a dar errado, e é aí que embarcamos em uma viagem de gêneros pastiches, mesclados com humor e drama, para entender a psique dos protagonistas, ao mesmo tempo em que conhecemos melhor os problemas de todos vários personagens, como o trauma do Dr. Muramoto, a dor da Dra. Fujita e o conflito do Dr. James com sua mãe (Sally Field, brilhante como sempre).

Os vários pontos de virara da série são os nossos desdobramentos internos.

Entretanto, é em Annie e Owen que somos levados aos mais diversos mundos para entender como lidar com a dor vermos o quanto bloqueamos e autoimpelimos nosso sofrimento. A direção de Fukunaga e a escrita de Somerville tiram o melhor da atuação de Stone e Hill, que vivem vários personagens, desdobramentos de suas consciências, para passarmos por vários estágios de terapia. De fato, vários são os elementos de psicologia presentes na série, com três níveis de análise da Psicologia, comportamental, biológico e sócio-cultural. Uma viagem mindblowing, com edição e montagem perfeitas, além de uma fotografia e mescla de cores muito simbólicas para nos fazer chegar ao confronto com, talvez, problemas corriqueiros de nossos dias, como a ansiedade e a depressão. A simbologia faz com que várias vezes sejamos levados de volta a elementos que marcaram a vida dos personagens e os tornaram em quem são, seja um falcão ou um elfo.

Maniac traz uma mensagem por baixo de todo o visual que é muito estimulante: não há normalidade, não precisamos esquecer nossas dores, mas aprender a lidar com elas e, mais do que tudo, que precisamos, como seres humanos, de nossas conexões. Owen e Annie encarnam duas vertentes da mesma ideia: a de que precisamos nos autoconhecer, enfrentar nossos piores medos, e encarar que a vida não é perfeita, mas como Chaplin disse, pode ser maravilhosa se não tivermos medo de vivê-la. O próprio dilema do computador GRTA e o relacionamento de Owen com a versão de seu irmão (Billy Magnussen) fortalecem essa ideia central e enriquecem a série.

No fim, são nossas conexões que fazem o que nós somos.

Talvez o ponto negativo da série seja que, para tratar de temas tão complexos, ela precise inserir toda essa fantasia oitentista, que numa análise mais profunda, parece somente ser feito para manter as pessoas na frente da tela e não esquecer que, ei, essa é mais uma série da Netflix. Como disse o próprio Fukunaga, ao canal trabalha com algoritmos, e cada decisão de roteiro precisa obedecer a uma lógica de perda ou manutenção de espectadores. Talvez por isso, a série não consiga ser tão intensa na mistura de sentimentos como seu material de inspiração, a série norueguesa de mesmo nome, de 2014.

Maniac merece ser assistida por que traz uma narrativa interessante dentro de uma ambientação provocativa para tratar de temas que dizem respeito a todos nós. No fim, a amizade e o amor é algo que une os laços da série, e não é o que deveria unir a todos nós?

Nota: 

 

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