Análise | A Época da Inocência (1993)

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Martin Scorsese é um grande narrador cinematográfico. Essa é a característica mais destacável do diretor ítalo-americano. Seu extenso conhecimento nas áreas de edição, fotografia, roteiro e sua habilidade em realizar escolhas inteligentes de direção fazem dele um nome especial no cinema. Esses talentos transparecem fortemente em seus filmes, mas em poucos se destacam no nível do percebido em A Época da Inocência, lançado em 1993. Produzido após os fenomenais Cabo do Medo e Os Bons Companheiros e um pouco antes do épico Cassino, essa produção figura como único representante das histórias românticas de época na carreira do diretor, e é um filme bastante peculiar.

Baseado no romance homônimo de Edith Wharton, o filme conta a história do triângulo amoroso formado por Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer e Winona Ryder, no qual o protagonista se vê dividido entre a mulher que ama (Pfeiffer) e a mulher com a qual tem um relacionamento bem aceito pela sociedade (Ryder). O pano de fundo dessa história é também protagonista narrativo: a sociedade burguesa nova iorquina da época com suas convenções sociais ferrenhas que emulavam hiperbolicamente a moral social da Europa aristocrática, que a essa época já se mostrava mais liberal que essa distorcida sociedade americana.

Já nos minutos iniciais, o diretor demonstra precisão na composição do cenário e na explicitação das dimensões sociais na qual a trama se ambienta se utilizando do recurso de narração em off com planos-sequência bastante expositivos, ao modo do que havia realizado em Os Bons Companheiros e reprisaria ainda em Cassino, Gangues de Nova York e O Lobo de Wall Street. Ao longo dos 139 minutos de projeção essa exposição ganha substância de modo impressionantemente bem sucedido. O filme parece disposto a não deixar passar nenhum detalhe da riqueza da composição presente no livro, e consegue, o que acaba se tornando uma faca de dois gumes. Se por um lado a riqueza narrativa é um destaque no filme, de outro esse tour de force torna a metragem do filme pesada para a audiência. Mesmo não sendo dos filmes mais longos da carreira do diretor, ele acaba por ser um dos mais pesados devido ao excesso de informações condensadas.

Um grande destaque fica por conta do trio central que consegue construir os arcos de seus personagens ao longo de anos com riquezas de detalhes. Mesmo Winona Ryder, que assume o papel de menor destaque, entrega sua personagem com delicadeza, exibindo grande força em uma sequência nos minutos finais de filme. Mas o destaque maior fica por conta do sempre superlativo Daniel Day-Lewis, que possui uma carreira com poucas obras, mas que sempre demonstra um cuidado muito além da média no desenvolvimento de seus personagens.

A Época da Inocência é um dos filmes menos populares do grande Martin Scorsese, apesar disso é um dos melhores representantes dos talentos peculiares que o tornam um diretor tão especial. Apesar de longo e um tanto exaustivo, o filme é rico em todos os seus aspectos, se mostrando uma narrativa delicada com ambientação e personagens brilhantemente construídos que finalizam entregando ao público uma narrativa emocionante.

 

Nota: 

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