Análise | Batman Eternamente (1995)

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Quando Batman se tornou um imenso sucesso de bilheteria e crítica em 1989, obviamente muito se esperou de sua continuação, Batman – O Retorno, lançada três anos depois. Porém, infelizmente e injustamente, o filme não obteve a mesma recepção de seu antecessor, mesmo com uma notável melhora estética, técnica e narrativa imposta por Tim Burton. Acreditando que o estilo sombrio do renomado cineasta e a violência fossem responsáveis pelo “fracasso” do longa, a Warner logo tratou de mudar radicalmente o rumo da franquia, adotando uma nova e colorida roupagem. O resultado foi o enfadonho e carnavalesco Batman Eternamente, longa de 1995 que, embora muito inferior aos anteriores, funciona (um pouco) como prazer culposo para aquele espectador que cresceu assistindo-o.

É de conhecimento dos fãs do Batman o fato do personagem ter passado por diversas reformulações em sua mitologia e personalidade, tanto nos quadrinhos quanto em outras mídias. No início de sua jornada, quando seus textos e desenhos eram comandados por Bob Kane, Bill Finger, Jerry Robinson e outros talentosos artistas, um tom mais investigativo imperava em suas histórias. Durante as décadas de 50 e 60, principalmente, um humor pastelão, situações constrangedoras e infantis (também presentes no famoso seriado estrelado por Adam West) invadiram as revistas do herói, privando sua essência original de qualquer seriedade. Sua aura mais adulta (sombria,até) só foi resgatada em meados dos anos 70, mérito da dupla Dennis O‘nneil e Neal Adams, e, posteriormente pelo mestre Frank Miller, criador dos clássicos Batman: O Cavaleiro das Trevas e Ano Um, sendo coroada com o filme de 1989.

Eis que os produtores da franquia optaram por usar uma nova visão para o terceiro filme, totalmente devotada ao estilo kitsch e humor camp vistos no seriado de 1966. O grande problema era que o charme da série foi desfigurado e preterido por um festival alegórico e lisérgico de cores e cenas cômicas que não funcionaram bem na época do lançamento. Foi até aceitável uma mudança de estilo, uma vez que isso frequentemente acontecia com o personagem, mas o exagero e falta de noção dos envolvidos acabou distanciando Batman Eternamente de várias referências e semelhanças dos quadrinhos.

O primeiro passo foi trocar o comandante do navio. Ocupando o cargo de produtor, Burton foi substituído pelo veterano Joel Schumacher, responsável por bons filmes, como Os Garotos Perdidos e Um Dia de Fúria, que deslumbrado com o grande orçamento e liberdade criativa liberados pela Warner, entregou uma obra marcada por decisões polêmicas e errôneas. A principal foi  uma mudança estética, antes gótica e agora muito colorida, que contou com uma direção de arte e fotografia (indicada ao Oscar no ano seguinte) carregadas de neon, fato bastante criticado. Nem os figurinos escaparam de críticas: os detalhes mais gritantes foram uniformes da dupla dinâmica, agora incrementados com os famosos e desnecessários mamilos, que segundo Schumacher, deixavam os heróis com um visual de herói grego clássico. Nem o vilão Duas-Caras, interpretado de maneira exagerada pelo premiado Tommy Lee Jones (que aceitou o papel para agradar o filho, fã de quadrinhos), escapou, ganhando um visual bizarramente colorido.

Pulando fora por não aprovar o roteiro e a saída de Burton da cadeira de diretor,Michael Keaton foi substituído pelo loiro Val Kilmer, astro difícil de se trabalhar e bastante requisitado na época, que entregou uma atuação no piloto automático e carente de emoções. Na verdade, não somente Jones e Kilmer estão decepcionantes como também todo o restante o elenco: Nicole Kidman, no papel da Dra. Chase Meridian, nada faz além de lançar olhares lascivos; Chris O’Donnel até se esforça, sendo o único que possui um arco bem desenvolvido em meio ao caos repleto de furos que é o roteiro (escrito por Akiva Goldsman); já Jim Carrey, que dominou Hollywood no ano anterior graças a Ace Ventura, O Máskara e Débi & Lóide, está afetadamente caricato como um Charada que mais remete a outro vilão do Batman, o Coringa. A direção do elenco não foi fácil, com Schumacher precisando suportar o estrelismo de Kilmer e o clima ruim entre Jones e Carrey, uma vez que o ator veterano não suportava o comediante. Apesar disso tudo, o longa arrecadou 336,5 milhões, a segunda maior bilheteria de 1995, e três indicações ao Oscar, todas técnicas, além de presentear o público com canções inesquecíveis: Kiss from a Rose, de Seal, e Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me, do U2.

Batman Eternamente é um caso de obra que, uma vez assistida, deve ser evitar uma nova sessão. Ainda que Joel Schumacher se desculpe até hoje sobre o que causou ao Homem-Morcego com Batman e Robin dois anos depois, é valido dizer que ele já havia destruído tudo que foi construído muito bem nos filmes anteriores, além de ultrajar fãs devotos dos personagens. Foi o começo da verdadeira Queda do Morcego.

Nota:

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