Análise | One Day At a Time

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Já fora explanado aqui em postagens anteriores a dificuldade em realizar séries de comédia que superem o óbvio, entretenham e consigam construir uma história linear que corra concomitantemente com o desenvolvimento do humor. O desafio ficou cada vez mais difícil com o perpassar dos anos, visto que o âmbito da sitcom ficou saturado com inúmeras produções que, muitas vezes, mostravam apenas mais do mesmo.

Felizmente, não é o que vemos com One Day At a Time. Dentro de um mercado em que (quase) todos os estereótipos e situações já tinham sido abordados, o seriado, apesar de ser um reboot de uma série dos anos 70, trouxe um entretenimento deliciosamente inovador e envolvente, em que o telespectador se sente conectado com os personagens e cria uma afeição que prende por todos os capítulos.

O seriado, que é composto por certos artifícios “clássicos” de sitcom (como as risadas de fundo, os jogos de câmera e a interação entre personagens), narra a história de uma família cubana que veio para os Estados Unidos. Liderado pela matriarca Lydia, abuelita genialmente interpretada por Rita Moreno, o núcleo familiar é composto, ainda, por Penelope (Justina Machado), Elena (Isabella Gomez) e Alex (Marcel Ruiz). O carismático elenco é engrossado, ainda, por Schneider (Todd Grinnell), dono do apartamento em que a família reside como inquilina, e Dr. Leslie A (Stephen Tobolowsky), médico que trabalha com Penelope, que é enfermeira.

Além de nos envolver com as tiradas sagazes, engraçadas e cativantes dos personagens, One Day At a Time nos traz uma lição a cada episódio. Seja através do instrumento da ironia, sarcasmo ou pensamentos absurdos de Schineider, por exemplo, aprendemos em meio aos risos lições sobre homofobia, machismo, xenofobia, as dificuldades de ser mãe solteira e de ser um estrangeiro num país nacionalista como os EUA (e que vive uma atual crise na aceitação de imigrantes).

Elena traz momentos engraçadíssimos e também emocionantes por ser uma adolescente lésbica cubana, passando pela fase de se assumir para a família e descobrir a própria sexualidade. Penelope lida com os contratempos de ser uma mãe solteira, ex-combatente, com traumas pelo insucesso de seu relacionamento e dissabores financeiros – conseguindo passar por tudo isso, no entanto, com a resistência de uma mulher forte e autossuficiente. Tudo isso é fechado com chave de ouro pelo carisma incomparável de Lydia, trazendo muito da cultura cubana de forma às vezes caricata na busca pelo humor e, em outros momentos, nas mais simplórias e realistas manifestações das raízes do país.

O grito por representatividade é mais do que suficientemente ouvido no seriado, que demonstra toda a força de mulheres nas mais diversas situações – seja lutando contra a homofobia, lutando por um espaço no mercado de trabalho ou fincando suas raízes em meio ao sobrepujamento da cultura americana tradicional. As lições são passadas de forma tão natural, através de situações tão divertidas e rotineiras, que é possível encontrar um pouco de cada um em  One Day At a Time (e muito de sua família, independentemente das características principais, também).

Ninguém é perfeito: abuelita às vezes soa muito conservadora, Elena leva suas opiniões corretas sobre o mundo a um certo grau de extremismo, Penelope perde as estribeiras e não consegue controlar tudo. Todas essas situações, no entanto, conseguem trazer a comicidade em todos os episódios e, ainda, mostrar que não ser perfeito é totalmente normal – o que é brilhantemente demonstrado nas cenas em que Penelope passa a tomar antidepressivos e ir à terapia, trazendo uma maravilhosa exposição sobre a necessidade de procurar ajuda e combater problemas psicológicos (e como o assunto é sério).

Os agregados Schneider e Dr. Berkowitz trazem todas as pitadas caucasianas e norte-americanas que a narrativa porventura pudesse requerer. Com suas próprias problemáticas que os levam a querer ser abraçados pela família (que é lindamente estruturada entre os componentes principais), são abraçados por cada um de uma forma muito bonita, harmônica e que traz espaço para que todas as histórias se entrelacem e entreguem um plot sem furos. 

O seriado, portanto, é importante e essencial em inúmeros sentidos: por trazer lições de como enxergar o mundo e a si mesmo e como lidar com as diferenças; por trazer representatividade e identificação; por nos apresentar um elenco multifacetado, harmônico e muito competente, além de uma história coesa e envolvente e, por fim, por trazer boas risadas e levezas quando a vida pede simplesmente o conforto de se sentir entre família e em casa.

 

Nota: 

 

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