Análise | Sierra Burgess é uma Loser

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Por muito tempo o âmbito das comédias românticas foi protagonizado apenas pelos estereótipos clássicos de mocinho e mocinha e histórias previsivelmente bem amarradas. Mesmo que alguns circunstancialismos fossem modificados na rasa tentativa de trazer originalidade para algumas narrativas, o gênero foi povoado com muitos exemplos repetitivos (apesar de, é claro, contar com exceções que nos arrebataram com um plot surpreendente).

A feliz e acertada busca por representatividade nos filmes, em que se clama pela diversificação nas características dos personagens principais para que a maioria (que não se inclui nos parâmetros de mocinha/mocinho lindíssimos, héteros, brancos e com um ótimo shape) fez com que protagonistas diferentes ganhassem espaço. É o que se vê, por exemplo, em Para todos os garotos que já amei, estrelado por uma atriz asiática.

Existe, no entanto, uma grande e notável barreira a ser perpassada: a da persecução pelo corpo perfeito e pelas feições taxadas socialmente como belas. As protagonistas de filmes de romance sempre possuíram como elemento indispensável, até aqui, a beleza convencional como fator principal. É por isso que a escolha de Shannon Purser (Stranger Things, Riverdale) para personagem principal de Sierra Burgess é uma Loser é algo que chama a atenção (apesar de ser assustador como parâmetros superficialmente impostos, quando afastados, ainda se destaquem nos dias de hoje, quando já deveria ser permeado pela mais perfeita normalidade).

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O filme conta a história de Sierra (Shannon), uma menina que não se encaixa nos padrões pré-estabelecidos no high school (e definitivamente não se encaixa, também, nos de protagonismo de filmes de romance). Inicialmente sua vida parece andar relativamente nos trilhos, com um fiel amigo ao seu lado, uma família que se preocupa com suas demandas, ótimas notas e destaque em algumas matérias do colégio. No entanto, a autoaceitação e aparência (questões que nos acompanham na adolescência e, sejamos sinceros, por toda a vida) são âmbitos difíceis para Sierra, que não se considera e não é considerada pelos que lhe rodeiam como a típica garota fisicamente atrativa.

A inércia com relação aos assuntos amorosos é quebrada quando Veronica (Kristine Froseth), a clássica megera do colégio que despreza e diminui, é paquerada por um garoto numa lanchonete e dá o telefone de Sierra como se fosse o seu próprio, num clássico ato de maldade e supervalorização de si mesma. O garoto, Jamey (Noah Centineo), garoto popular e atlético de outro colégio, passa a trocar mensagens com Sierra, que, maravilhada com a perspectiva inédita de um romance, finge ser Veronica e empurra a grande mentira com a barriga.

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A tentativa de fugir do óbvio e desenvolver uma trama afastada das convenções sociais faz com que o filme se perca em si mesmo. Ao se distanciar dos padrões, alimenta situações pouco verossímeis e inevitavelmente já batidas, como o background de sofrimento da maldosa menina popular da escola (que é ruim com seus colegas porque sofre muito em casa). A empatia que deveria ser voltada para a protagonista acaba sendo compartilhada com Veronica, que, possivelmente, pode ser vista como apenas um ser incompreendido que precisa de um impulso para se tornar boa. A massiva ingenuidade que envolve tal trama, no entanto, acaba sendo conivente com a acidez do bullying americano e inverte lamentavelmente os papéis: Sierra se envolve numa grande e quase imperdoável mentira, cai nas armadilhas da maldade e da vingança e, assim, traz redenção para a antagonista superficialmente construída.

No que diz respeito ao romance com Jamey, que deveria ser o ponto principal do filme, o ofuscamento da narrativa em específico é óbvio: o mocinho é previsivelmente bom por baixo das camadas da popularidade e se apaixona pela mistura da aparência de Veronica com a perspicácia e inteligência de Sierra. A mentira é empurrada até níveis forçados, o que faz com que a intensidade do romance perca o brilho e fique em segundo plano.

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Apesar de não conseguir um êxito certeiro em muitíssimos pontos da narrativa, o filme consegue passar lições importantes. Na busca rasteira pela beleza fugaz, as verdadeiras características profundas que alimentam os relacionamentos são deixadas de lado (o que pode parecer clichê, e acaba sendo, mas é implacavelmente verdadeiro). Sierra é inteligente, engraçada e empática, mas o fato de não se encaixar nos parâmetros padrões faz com que ninguém consiga, no superficial âmbito teenager, se aproximar o suficiente para descobrir suas qualidades.

Ao buscar a empatia com as minorias e dar para elas vertentes diferenciadas do comum, o filme acaba trazendo o enfoque para a relativização da maldade da antagonista (que é, ora, totalmente encaixada nos parâmetros tradicionais!) e enfraquece a conexão com a garota fora dos padrões que deveria receber todo o centro das atenções.

Com acertos destacáveis mas, ainda, erros grandes na narrativa com uma história romântica fraca e personagens borradamente desenhados, Sierra Burgess é uma Loser tentou fugir dos padrões, mas acabou se equilibrando em elementos bastante esquecíveis.

 

Nota: 

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