LeiaMax | Laranja Mecânica e a liberdade

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“Então, o que é que vai ser, hein?” Hoje tem estreia na MaxCon, a nova coluna semanal de literatura, e para começarmos, uma obra que envelheceu bem o suficiente para refletir um elemento muito presente em nossos dias: Laranja Mecânica, o clássico de Anthony Burgess, questiona-nos sobre a liberdade e a livre escolha, e se há ou não limites para isso.

Não é difícil crer que Laranja Mecânica saiu do desespero de alguém à beira da morte. Burgess havia sido diagnosticado como terminal um ano de vida, por conta de um tumor no cérebro. O escritor se desesperou com a perspectiva de deixar sua esposa sem recursos após sua morte, e começou a escrever freneticamente. Talvez por conta desse desespero, ele tenha concebido a distopia que é Laranja Mecânica.

Do desespero ao sucesso. Burgess se confunde muito com Alex.

Laranja Mecânica, entretanto, traz mais do que uma reflexão sobre uma realidade de desespero. As aventuras adolescentes do jovem Alex (diferente do filme de Stanley Kubrick, de 1971, o Alex de Burgess tinha apenas 15 anos) e sua pequena gangue de druguis, que passa o dia todo cometendo atos de ultraviolência pelo simples prazer que isso lhes provoca. Anthony Burgess concebeu não só um ambiente estranho, mas desenvolveu uma linguagem nova, o dialeto “Nadsat”, adotando palavras do russo, do inglês cockney e do eslavo, e adaptando-as ao inglês britânico; língua essa que ainda aparece em sua forma vitoriana, com Alex e seus companheiros misturando o “Nadsat” com estruturas modernas, mas não tão atuais para os falantes de hoje. Essa tradição remonta a James Joyce, embora, em minha opinião, não tão hermética como a linguagem de Joyce, que detestava hífens e vírgulas. Em seu Ulysses, e em Finnegan’s Wake, o escritor cria quase que um novo inglês.

Junto a Ulysses, Joyce criou sua própria linguagem,

“Então, o que é que vai ser, hein?” Se Burgess não alcança o nível linguístico de Joyce, ele não deixa por menos na reflexão central que traz em seu livro. Alex é preso por seus crimes depois de uma tentativa frustrada de invasão na casa de uma senhora idosa que acaba morrendo, e vai para o reformatório, onde acaba sendo a primeira cobaia de um método de condicionamento que, se não retira toda sua violência, faz com que ele sinta um mal-estar terrível ao tentar praticá-la, algo que deixaria John B. Watson orgulhoso. Mas, onde está a humanidade se tirarmos a escolha de um indivíduo? Mesmo que seja para o mal, isso justifica tornarmos o homem em uma laranja mecânica, cujo título remete à similaridade entre orange e orangutan = primata parente do homem moderno. Ou seja, até que ponto podemos tornar o ser humano em algo mecânico, que atenda as demandas de ordem, mas passando por cima da decisão individual? Esse questionamento é o mote central do livro, e versa sobre o limite que o pensamento coletivista, como feito por George Orwell e Aldous Huxley, pode impor ao indivíduo.

A série das distopias também conta com Ray Bradbury e H. G. Wells.

Aqui, contudo, jaz outro questionamento que Burgess não aprofunda, mas que fica latente nas palavras do livro. As ações de Alex violam a liberdade das pessoas que ele ataca, então o que impede as outras pessoas de invadi-lo na sua própria? De fato, o comportamento das pessoas que atacam Alex, como os policiais e as autoridades, até mesmos os comunistas que o “ajudam” em sua reabilitação são parvamente mostrados como meramente cruéis, pois o ponto central é que a individualidade deve ser mantida para evitarmos justamente esse futuro distópico do livro.

Não nos alonguemos, pois o foco dessa primeira coluna é a maestria de Burgess e a reflexão final fica para os nossos dias, em que muito se debate sobre os limites da liberdade entre os grupos sociais. Temos discursos sobre o limite dos direitos e das liberdades, e sobre os rumos que a sociedade deve seguir, sob a égide do governo ou sob as decisões individuais. Lógico que não entraremos aqui em debate político, mas é interessante que, quase 60 anos após seu lançamento, Laranja Mecânica ainda consiga refletir pensamentos pertinentes à sociedade, algo que nem sua adaptação ao cinema por Kubrick conseguiu, por mais que o filme seja excelente.

Laranja Mecânica é um livro sobre o direito à escolha, mais até do que uma história sobre a passagem da adolescência para a vida adulta, e reflete justamente os anseios de uma sociedade, por isso sua importância até os dias de hoje.

“Então, o que é que vai ser, hein?” O livro é publicado pela editora Aleph, em papel pólen — que dá gosto de passar nos dedos —, tendo 199 páginas de miolo e um preço de R$ 44,90.

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