Análise | Batman Begins (2005)

5 (100%) 1 vote

Em 1997, o pavoroso Batman e Robin de Joel Schumacher não apenas despertou a ira e desgosto de fãs e críticos como também enterrou a franquia iniciada brilhantemente por Tim Burton na década de 80. O fracasso foi tão impactante que uma nova sequência, intitulada Batman Triunfant, onde a Arlequina e um Espantalho interpretado por Nicolas Cage (como eu queria ver isso) seriam os principais vilões, acabou sendo engavetada. Porém, uma nova era se iniciou no cinema, na qual filmes voltados para super-heróis passaram a arrecadar rios de dinheiro, graças ao sucesso de X-men e Homem-Aranha. Com a Sony e a Fox dominando o mercado e firmando a Marvel como uma nova potência, a Warner não quis ficar para trás e logo tratou de reapresentar a DC Comics para o público, anunciando duas grandes produções: Superman – O Retorno (2006) e Batman Begins (2005). Mas se tratando do Batman, como superar o efeito devastador deixado por George Clooney e seu bat-cartão de crédito? Simples, convocando um dos melhores diretores da atualidade e usar clássicos dos quadrinhos como base para o roteiro.

Quando Batman Begins foi anunciado em 2003, a expectativas de que o personagem voltasse com tudo às telonas foram aumentadas quando Christopher Nolan, cineasta que vinha obtendo merecido prestígio graças ao excepcional Amnésia (2000) e o suspense Insônia (2002) e que, assim com Tim Burton, era dono de um estilo sombriamente contemplativo, foi contratado. Conforme o público foi acompanhando sua filmografia, pôde notar que Nolan possui uma narrativa poderosa,  justamente o que ele impõe a este reboot da franquia. Para o roteiro, foi escalado David S. Goyer, já experiente em adaptações de quadrinhos (ele escreveu a franquia Blade e o pavoroso e pouco lembrado Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D.), que sabiamente escolheu Batman: Ano Um, obra-prima escrita pelo mestre Frank Miller e ilustrada por David Mazzucchelli que apresentava os primórdios do Batman no combate ao crime e a formação de uma importante aliança com James Gordon.

Como a origem do herói nos longas anteriores se limitava apenas ao assassinato de seus pais, o roteiro de Goyer se sobressai por ampliar toda a mitologia em torno de como Bruce Wayne se tornou o vigilante noturno, focando nos seus motivos, crenças, seu treinamento e preparação tecnológica. Nada de pinguins com bombas, planos mirabolantes e um visual carnavalesco. Apesar de algumas sequências de luta e de ação um pouco exageradas, o tom que prevalece no longa tem um pé fincado na realidade, auxiliada por uma trama adulta que envolve a máfia e a corrupção na polícia.

Depois dos fracos desempenhos de Val Kilmer e George Clooney como um Bruce Wayne/Batman menos dramático e dark, a escolha de Christian Bale, que havia ganhado vários elogios por seu desempenho no suspense Psicopata Americano, acabou se mostrando outro grande acerto. Camaleônico, o ator, que precisou ganhar bastante massa muscular uma vez que estava magérrimo devido a seu papel em O Operário, desenvolveu um perfeito equilíbrio entre Wayne e seu alter ego, representando toda a dor, solidão e determinação que o personagem exige. Pode-se afirmar que em todos os longas da franquia Batman o herói teve menos tempo em tela e desenvolvimento que os vilões, mas Batman Begins quebrou essa maldição, ainda que conte com antagonistas marcantes. Há o Ra’s Al Ghul do ótimo Liam Neeson (uma de suas últimas atuações antes de interpretar o mesmo papel em vários filmes de ação nos anos seguintes) que, assim como Bruce, possui um passado trágico, mas uma diferente visão sobre o crime. Enquanto o Batman deseja inspirar esperança e coragem, Ras usa o caos e ataques massivos, uma boa adaptação do personagem por Nolan e Goyer. Já o Espantalho, interpretado de modo competente por Cillian Murphy (que chegou a disputar o papel de Batman), se mostrou bastante fiel aos quadrinhos, com direito a um assustador visual e sua habitual obsessão pelo medo. O elenco ainda possui nomes de peso, como Gary Oldman, Morgan Freeman, Michael Caine, Ken Watanabe, Tom Wilkinson e Rutger Hauer, todos com ótimas atuações. Apenas Katie Holmes, única mulher com desenvolvimento na produção, possui um performance mais anêmica, chegando ao ponto de ser indicada ao Framboesa de Ouro, o que acarretou sua substituição por Maggie Gyllenhaal.

Por contar com uma abordagem mais realista, o filme possui um visual que destoa de qualquer adaptação anterior, muito mais militar e cru. Seja pelas belas locações, pelo potente batmóvel que evoca o tanque usado pelo herói na HQ O Cavaleiro da Trevas ou pelo novo uniforme (sem músculos e mamilos polêmicos esculpidos), Batman Begins se destaca numa era pré Marvel Studios como uma das melhores adaptações de quadrinhos para as telonas.

Se Batman e Robin se mostrou como o fim de um ciclo brilhantemente por Tim Burton, o novo início do Morcegão nos cinemas funcionou como uma bem vinda e merecida adaptação e um grande filme de origem. Ainda que sua continuação ocupe um grande destaque entre críticos e fãs, foi em Batman Begins que Nolan e a Warner reverteram o modo de como tornar crível e cativante um complexo personagem para uma nova geração. O mesmo não pode falar de Superman: O Retorno

Nota:

 

Leave a Reply

%d bloggers like this: