Análise | Um Pequeno Favor

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A filmografia do cineasta Paul Feig é marcada por obras cômicas que possuem protagonistas femininas de grande presença e atitude. Quando ele entregou ao público alguns sucessos como Missão Madrinha de Casamento, As Bem Armadas, A Espiã que Sabia de Menos e até mesmo o pouco querido Caça-Fantasmas, ficou nítido o seu talento para desenvolver suas personagens e tramas, rendendo comédias pouco comuns no cenário americano. Esse seu talento é mais uma vez bem utilizado em seu novo longa, Um Pequeno Favor, suspense com toques de humor que rende uma deliciosa e agradável sessão

Escrita por Jessica Sharzer (do seriado American Horror Story) e baseada no livro de Darcey Bell, a trama nos apresenta a Stephanie Smothers (Anna Kendrick, indicada ao Oscar por Amor sem Escalas), uma prestativa e simpática mãe viúva que inicia uma amizade com a enigmática e charmosa Emily (Blake Lively, de Águas Rasas), uma mulher totalmente oposta a Stephanie em todos os sentidos. Enquanto Emily possui um estilo de vida rico e atraente, é adepta a roupas estilosas, um bom dry martini e dona de uma imensa liberdade sexual, Stephanie leva uma vida mais certinha, trabalhando como vlogueira e usando um figurino infantil. A relação das duas sofre uma reviravolta quando Emily desaparece repentinamente, o que faz com a protagonista inicie uma investigação particular e descubra alguns segredos obscuros da amiga.

Para quem já teve o prazer de assistir ao excepcional Garota Exemplar, de David Fincher, notará certas semelhanças no tom da trama, sua narrativa e revelações. Assim como o romance de Gillian Flynn, Um Pequeno Favor desenvolve bem seus personagens e dramas para que nos importemos e fiquemos morrendo de curiosidade em saber o que fato aconteceu a Emily. Assim como a Amy Dunne de Rosamund Pike, tanto Emily quanto Stephanie vão se revelando aos poucos e entregando segredos surpreendentemente impactantes e exalando dubiedade.

Auxiliado por flashback pontuais e precisos, o texto manipula o espectador, induzindo-o a acreditar em vários desfechos do caso. Como em Garota Exemplar, o mistério sobre o desaparecimento de Emily é desvendado para o público mais cedo que o previsto, ainda que não possua o mesmo fôlego do longa de Fincher para o que virá a seguir. Porém, o charme do longa está no dom de Feig para extrair comicidade das mais inusitadas situações, principalmente no clímax (que conta com uma cena que  me remeteu a Meninas Malvadas). Em certa cena, os nervos do público serão colocados à prova em momentos bastante tensos para em seguida uma funcional piada aliviar tudo e lembrar que Um Pequeno Favor é uma boa mistura de gêneros.

O tom humorístico trás lembranças de boas comédias dos anos 50/60, algo auxiliado pelo excelente trabalho técnico. Além de uma ótima fotografia que alterna tons escuros e claros com precisão, a direção de arte e os figurinos coloridos trazem uma atmosfera de alguma novela americana do passado. O filme ainda conta com uma trilha sonora musical instigante, com grandes canções traduzidas para o francês e que com certeza serão adicionadas em várias listas do Spotify.

Em vez de suas habituais colaboradoras Kristen Wiig e Melissa Mccarthy, Feig escalou atrizes de peso, disputando quem devora cada cena em que aparecem. Kendrick, que sempre possuiu uma boa veia cômica, nos brinda com uma sensacional atuação num papel feito sob medida para seu carisma e beleza pueril. Sua química com Lively, também ótima e sensual como nunca, é enorme, rendendo diálogos intimistas e momentos onde tensão e erotismo convivem caoticamente. Outro personagem que rouba a cena é o detetive interpretado por Bashir Salahuddin, dono das melhores e mais engraçadas falas da produção.

Sexy, provocante e deliciosamente engraçado, Um Pequeno Favor desponta como uma das gratas surpresas de 2018. Palmas para Feig, por sair de sua zona de conforto e nos presentear com um suspense estiloso que deixaria Hitchcock orgulhoso. E na sétima arte, isso é um grande elogio.

Nota:

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