LeiaMax | As mínimas coisas de Carta ao Pai (Franz Kafka)

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Esta semana terminou uma das melhores temporadas da série Better Call Saul, estrelada por Ben Odenkirk, e o detalhismo da queda moral do personagem por conta de tantos pequenos detalhes fez lembrar um escritor que foi moldado por eles: Franz Kafka. Autor de livros que parecem estranhos à primeira leitura, como O Processo e a A Metamorfose, a obra de Kafka se torna tão clara e simples quanto uma criança triste ao lermos um de seus livros menos conhecidos: Carta ao Pai.

“Querido pai,

Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como de costume, não soube responder, em parte justamente por causa do medo que tenho de você, em parte porque na motivação desse medo intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa fala. E se aqui tento responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto, porque, também ao escrever, o medo e suas consequências me inibem diante de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento.”

Kafka abre o livro, que foi de fato uma longa carta a seu pai, Hermman, e já vemos o conturbado relacionamento entre os dois, que marcou a vida e a literatura do autor. E no decorrer do livro, vemos que não é o medo que guia a caneta de Kafka, mas a forte e imponente presença de seu pai. O livro, motivado pela rejeição (indiferença mesmo) do pai a uma tentativa de casamento de Franz, o que motivou a pergunta de por que o filho afirmava que tinha medo de seu progenitor.

A dor nasce, muitas vezes, nos pormenores da vida.

A carta prossegue, e são, como dito no trecho que abre o livro, tantos pormenores, como migalhas deixadas para que sigamos uma trilha que, e ao chegarmos lá, permite-nos ver todo o sofrimento que fora traduzido em A Metamorfose, por exemplo. Coisas como ter vergonha de seu corpo franzino em um banho público, e ser “arrancado” do banheiro onde se protegia dos olhares alheios, algo com certeza muito menor aos nossos olhos, mas o que podemos dizer sobre a dor de alguém? Como começa, que fatos levam uma pessoa ao abismo de sua existência.

O estilo do realismo de estranhamento de Kafka, suas características de Expressionismo e Surrealismo, mesmo que ele não possa ser de fato enquadrado em nenhum desses estilos, não são, como muitos afirmam, resultado das tragédias de seus irmãos, falecidos na infância, mas muito do efeito de se pai. Não é só em Carta ao Pai que vemos isso, mas em Diário Íntimo e em outras de suas obras, como América e O Castelo.

A literatura e o estilo de Kafka “clareiam” após a leitura de Carta ao Pai.

Igualmente como um protesto contras as instituições opressoras da humanidade, Kafka era socialista assumido, mas se posicionava contra a burocracia das instituições do Estado, percebemos outra instituição opressora, mas do próprio autor, que o coloca como o ser frágil e impotente de seus livros: seu pai, que era atlético e tinha decisão de espírito forte, como descreve o próprio filho.

A leitura desse livro é importante para que compreendamos um aspecto despercebido da dor: ela não nasce de modo espetacular, mas é construída, tijolo por tijolo, em nossos espíritos, e se torna parte de nosso ser, de nossa formação. A obra de Kafka nos mostra um vislumbre disso, de modo simples e sucinto, mas ainda com muito da habilidade narrativa que o tornou famoso. Aqui, também vemos as elipses de sua linguagem burocrática, o que os ingleses chamam de run-on sentences, e suas frases entrelaçadas que, juntas, formam um tecido textual denso de significados.

Carta ao Pai é publicado pela L&PM Editores, em formato offset, com 112 páginas, tradução, organização, prefácio, glossário e notas de Marcelo Backes, e custa R$ 16,90. Ótimo custo-benefício para entender o mundo kafkeano como nunca.

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