Análise | Riverdale (1ª temporada)

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Ao assistir Riverdale, série da CW que teve o seu primeiro episódio televisionado no dia 26 de janeiro de 2017, muitos telespectadores talvez não estejam familiarizados com as raízes antigas que embasaram o seriado. A editora Archie Comics, fundada em 1939, foi responsável por escrever histórias em quadrinhos estreladas por personagens adolescentes, inspirados em pessoas reais. Nas HQs, a narrativa principal consiste em delinear a história de Archie Andrews, que compõe um icônico triângulo amoroso juntamente com Betty Cooper e Veronica Lodge. A faceta teenager que permeia o plot da história original permanece no seriado inspirado nos quadrinhos, mas ganha alguns tons mais sombrios e de suspense. Muitos dos elementos incorporados pela série foram desenvolvidos com o decorrer dos anos e versões nas páginas das HQs, e outros foram trazidos para dar coerência ao que geralmente se produz no universo CW.

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Deste modo, o seriado adolescente de suspense e mistério é protagonizado por Archie Andrews (KJ Apa), Betty Cooper (Lili Reinhart), Jughead Jones (Cole Sprouse) e Veronica Lodge (Camila Mendes). O acontecimento que traz a conexão de toda uma temporada e o seu marcante tom de suspense é o assassinato misterioso de Jason Blossom (Trevor Stines), integrante da mais rica família de Riverdale. Os perigos, revelações, pistas e mistérios advindos de sua morte são os responsáveis por reunir um excêntrico grupo de amigos, que incorporam as já batidas personalidades do bonitão emocionalmente profundo; o desajustado com uma grande moral; a menina aparentemente perfeita, mas que guarda grande força dentro de si e a garota rica que oscila entre o temperamento esnobe e essencialmente bom.

O que mais incomoda nos personagens não é o estereótipo clichê, mas a inafastável falha em suas construções. Na tentativa de traçar um paralelo entre o suspense marcante e o desenvolvimento pessoal dos personagens, o seriado acaba pecando nos dois elementos basilares da história. Betty Cooper nos é mostrada, em algumas cenas, como uma menina que, por trás da imagem perfeita e equilibrada, guarda rancores, raiva e um universo sombrio dentro de si. No entanto, tal característica, que poderia fazer a personagem ser mais interessante e profunda, é deixada de lado na maioria dos episódios. Veronica é inicialmente apresentada de forma controversa, como a menina que se encontra em pé na linha limítrofe entre a crueldade e a vontade de se regenerar, mas a nuance logo se perde.

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Nenhuma das personagens, no entanto, é mais inconstante e mal construída do que Cherryl Blossom, interpretada por Madelaine Petsch. Em um episódio, Cherryl é uma garota má, sádica e fria, que pisa nos seus colegas de escola. No outro, é retratada de forma vitimista, se debruça, às lágrimas, nos braços dos protagonistas em busca de conforto e, na cena seguinte, aparece com o antigo olhar impiedoso de quem se acha boa demais para andar com o grupo de desajustados. A incoerência é angustiante durante toda a primeira temporada.

Talvez a maior consistência seja dada a Jughead Jones, personagem atormentado pela solidão, incompreensão, profundos problemas familiares e a sensação de não se parecer com aqueles que o rodeiam. Cole Sprouse, que dá vida a Jughead, consegue trazer todas as facetas necessariamente sombrias e, ao mesmo tempo, sensíveis e boas de um menino marcado por acontecimentos pesados e maiores do que ele mesmo. Em muitos momentos, a vontade de ver o desenvolvimento de Jughead carrega o seriado nas costas. Seu relacionamento com Betty também é um ponto positivo e envolvente na trama, apesar de ficar morno e secundário em diversos momentos, arrancando um pouco de seu destaque.

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No que diz respeito ao desenrolar do assassinato, que acaba conduzindo a narrativa e guiando os passos dos protagonistas, a história segue linear, sempre paralela ao demais acontecimentos. O problema é que a busca pelo assassino acaba ficando levemente desinteressante quando alguns momentos exageradamente teatrais se colocam no caminho. As reações novelescas e pouco convincentes da família do garoto assassinado, o tom de suspense muitas vezes forçado e pouco impressionante e o envolvimento na história de personagens rasos e mal construídos vão trazendo um ritmo levemente maçante ao plot.

É importante destacar, no entanto, que a atmosfera teenager, que mescla o suspense com o cotidiano de jovens buscando sua identidade e um grupo em que se encaixa, funciona bem – e é por isso que um fiel público jovem garante a manutenção do sucesso do seriado. Os últimos momentos da primeira temporada, responsáveis por resolver o mistério do crime e amarrar a história inicial dos 4 protagonistas (e, também, de Cherryl Blossom) conseguem suprir as expectativas.

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No fim das contas, Riverdale tenta mostrar através de cada personagem que, independentemente das aparências e do papel social que reveste uma pessoa, todos têm mistérios, segredos, mentiras e trapaças que lhes interligam e unem. Tal elemento é fortalecido pelos papéis do elenco mais adulto (dos pais dos adolescentes), que conseguem muito melhor balancear a complexidade que impede o indivíduo de se encaixar na pele do vilão ou do mocinho.

Com romances capazes de envolver o público jovem e uma história de assassinato com traços de mistério que podem prender o telespectador em alguns momentos, o conjunto da obra de Riverdale sem dúvidas prende e entretém, mas não apresenta nada tão diferente ou genial que lhe faça merecedora de grande destaque.

Nota: 

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