Análise | Demolidor: 1º Temporada

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Quando a Marvel e a Disney começaram a desenvolver seu MCU, muitos fãs de quadrinhos questionaram como certos heróis urbanos da editora seriam inseridos em universo repleto de fantasia e grandiosidade. Porém, enquanto Thor, Homem de Ferro, Capitão América e até os desconhecidos Guardiões da Galáxia ganhavam um bom tratamento nas telonas, personagens como Heróis de Aluguel, Cavaleiro da Lua, Jessica Jones e Demolidor não se encontravam nos planos dos produtores para ganharem alguma produção cinematográfica. A solução encontrada para agradar a todos foi uma inédita parceria com a Netflix, onde seriados focados em poucos personagens seriam desenvolvidos e culminariam numa ambiciosa união, exatamente como foi feito com a Fase 1 nos cinemas com Os Vingadores.

Antes de unirem em Os Defensores (grupo originalmente composto por Hulk, Namor, Surfista Prateado e Doutor Estranho), Jessica Jones, Luke Cage, Punho de Ferro e Demolidor teriam suas mitologias detalhadas para um público novo, embora este último já havia vestido o uniforme em outras ocasiões. Em 2003, o Homem sem Medo criado por Stan Lee e Bill Everett ganhou, pela Fox, uma adaptação pelas mãos do “talentoso” diretor Mark Steven Johnson (que mais tarde cometeria uma atrocidade chamada Motoqueiro Fantasma) que, apesar de usar a gloriosa fase de Frank Miller como base para o roteiro, entregou um material morno, carente de originalidade e com um elenco completamente deslocado. Quando a Marvel começou a dominar as bilheterias após Homem de Ferro, a Fox até tentou ressuscitar o herói cego nos cinemas, contratando cineastas como David Slade e Joe Carnahan para projetos não vingados, fazendo com que os direitos do personagem voltassem para a Casa das Ideias.

E Demolidor, primeiro seriado Marvel/Netflix, se revelou um grande acerto em todos os quesitos. Sob o comando de Steven S. DeKnight (que viria a dirigir Círculo de Fogo: A Revolta) e contando com apenas 13 episódios, padrão seguido pelas séries posteriores, o seriado bebeu bastante do clássico Demolidor – O Homem sem Medo, quadrinho escrito por Frank Miller e lindamente ilustrado por John Romita Jr (artista que estará presente na CCXP 2018) que recontava a origem do vigilante, seu relacionamento e treinamento com Stick e o início do seu romance com a mortífera Elektra. Foi dessa história também que o showrunner  e o roteirista Drew Goddard (roteirista cultuado por filmes como Cloverfield e O Segredo da Cabana) tiveram a ideia de colocar Matt Murdock ainda no começo de carreira como Demolidor, ainda sem um rumo certo e com um um uniforme negro influenciado pelo traço de Romita.

Goddard conseguiu criar uma Nova York suja, escura e violenta, que aos poucos vai se reerguendo da batalha entre os Vingadores e o exército de Chitauris. Para auxilar os atores, a cidade é promovida a personagem, envolvendo o público numa atmosfera de sordidez e brutalidade, itens que a série tem de sobra. O grande exemplo é a clássica luta no corredor, totalmente sem cortes e perfeitamente coreografada, figurando entre uma das melhores cenas da Marvel desde que Robert Downey Jr deu vida a Tony Stark em 2008 ou a decapitação de um bandido envolvendo o Rei do Crime e uma porta de um carro. São momentos de violência que justificam o uso de tais personagens em uma mídia onde a liberdade criativa é mais abrangente. O tom urbano, fotografia e design de produção, segundo Deknight, foram inspirados em grandes obras setentistas, como Taxi Driver, Operação França e Um Dia de Cão, o que claramente ajudou Demolidor a se destacar entre vários seriados.

A dualidade ética e seu conflito entre o moral e justo de Matt Murdock foram bem trabalhados, aprofundando-se também na religiosidade e nas suas inseguranças como vigilante iniciante, o que acaba rendendo diversos ferimentos ao longo da temporada. Para apagar das mentes de todos o estrago causado por Ben Affleck e sua cara de bobo no longa de 2003, Charlie Cox consegue, eficientemente, expor todo o drama e angústia no papel do protagonista, além de se sair bem em muitas cenas físicas (ainda que dublês façam o trabalho sujo) e naqueles em que exerce o cargo de advogado. A bela e talentosa Deborah Ann Woll (atuante em várias causas ligadas a deficientes visuais e casada com um cego) faz de sua Karen Page uma das melhores personagens femininas da Marvel, capaz de deixar todos aqueles leitores de HQs temerosos para que ela não tenha o mesmo destino que ganhou nas histórias de Miller e Joe Quesada. E temos o Wilson Fisk de Vincent D’Onofrio (Nascido para Matar), a imponência encarnada e disparado o melhor vilão da Marvel (desculpe Loki). Apesar de uma abordagem um pouco diferente do material original, o ator, com um sotaque intimidador e uma origem que bebe de Justiceiro Max, de Jason Aaron e Steve Dillon, consegue até humanizar o grande antagonista do Homem sem Medo.

Com mais tempo para desenvolver a mitologia de um dos seus mais complexos heróis, a Marvel se saiu muito bem. Demolidor expandiu perfeitamente o Universo Marvel para a televisão sem deixar de honrar a essência do personagem, além de homenagear toda sua fase áurea nos quadrinhos. Com um final apoteótico, deixará qualquer fã ansioso pelo retorno do Demônio Ousado.

Nota:

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