Análise | SKAM (1ª temporada)

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As recentes produções norte-americanas e suas diretrizes no que se refere a ritmo de narrativa, construção de roteiro, estilos de fotografia e demais elementos possuem uma diminuta variação quando adentramos em certos nichos mais amplamente acessíveis, como, por exemplo, histórias voltadas para adolescentes. Geralmente somos apresentados a uma narrativa um pouco mais acelerada, onde coisas acontecem simultaneamente, complexos arquétipos são montados em nossa frente e o ímpeto pelo entretenimento rápido atropela a vagarosidade às vezes necessária quando se trata da tentativa de retratar o cotidiano.

Em contrapartida, alguns filmes e seriados de determinados países geralmente carregam traços que fogem do padrão do blockbuster – como, por exemplo, a mais intensa dramaticidade nos enredos mexicanos. A individualidade carregada por cada cultura faz com que assistir a produções estrangeiras (que fujam do circuito de confecções permeadas por vícios americanos) propicie uma experiência bem diferente do comum.

Essa introdução é necessária para que possamos falar sobre Skam, seriado norueguês que teve seu primeiro episódio lançado em 25 de setembro de 2015 e foca em narrar o cotidiano de jovens noruegueses com todos os costumes locais e as problemáticas presentes na vida dos adolescentes, independentemente de traços culturais específicos. Poderia ser mais uma história ficcional sobre os percalços da puberdade, mas o modo como Skam se porta como seriado, como narrativa e como lição vai muito além do mesmo.

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Cada temporada é responsável por narrar a vida e o ponto de vista de jovens diferentes, focando em problemáticas centrais diversas. A primeira temporada (tema da presente matéria) nos apresenta a Eva (Lisa Teige), uma jovem com nítidos problemas de autoestima que precisa lidar com a falta de amigos e as dificuldades em administrar um relacionamento com a falta de amor próprio e a instabilidade da vida jovial.

A vida é, indubitavelmente, composta por momentos de maior euforia, em que acontecimentos empolgantes acontecem e nos atingem com um turbilhão de sentimentos. No entanto, é equilibrada com ocasiões maçantes, de solidão arrastada, dúvidas sufocantes e a paralisia diante da incapacidade de reconhecer o próprio eu – e o que é necessário para preencher um vazio que só nós somos capazes de curar, com as ferramentas que nos circundam.

O brilhantismo de Skam consiste (entre outros motivos) na capacidade de utilizar exatamente os instrumentos acima descritos para rodear o telespectador, envolvê-lo e fazer com que, aos poucos, se veja arrebatado pela intimidade, reconhecimento e afeto com os personagens que compõem a história. O seriado não tem pressa em mostrar sentimentos sendo descobertos, mágoas sendo remoídas, o debulhar da ansiedade e o peso das frustrações. Enquanto pausas são dadas, dando ao telespectador a possibilidade de experimentar a própria reação a situações cotidianas com uma amplitude de sentimentos, temos a interpretação silenciosa, cenários, objetos corriqueiros e diálogos simples construindo uma narrativa ao mesmo tempo tão pura e complexa.

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De forma mansa e intimista, Skam nos traz ensinamentos naturais sobre sororidade feminina, a importância de, como mulher, dar suporte e apoio às demais mulheres e acabar com a cultura de rivalidade feminina, trazer a autovalidação para o corpo, o intelecto e os próprios atributos sem a sede pela aprovação externa; a importância de dosar o amor pelo outro com o amor a si mesma, e como um equilíbrio para um relacionamento só pode ser alcançado quando se há equilíbrio dentro de si mesmo. A importância das amizades, do suporte, do apoio, da credibilidade e lealdade – especificamente entre mulheres, mesmo quando o machismo tenta nos dizer o contrário.

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Os episódios são curtos, com mais ou menos vinte minutos, e a primeira temporada possui 11 episódios. Tempo suficiente e com espaços satisfatórios para a reflexão e para se envolver irreversivelmente com a história da protagonista da temporada, Eva, o relacionamento com seu namorado, Jonas (Marlon Langeland), e suas incríveis novas amigas: Noora Sætre (Josefine Frida Pettersen), Sana Bakkoush (Irman Meskini), Vilde Hellerud (Ulrikke Falch) Chris Berg (Ina Svenningdal).

É maravilhoso ver a forma como o seriado une cinco meninas tão diferentes e com personalidades que se completam e trazem tanta representatividade, força feminina e lições feministas. Se colocar no lugar do outro, enxergar a si mesmo, ter empatia, resistência perante as situações difíceis e rechaçar o puro preconceito e julgamento apressado são alguns dos muitos ensinamentos que Skam trará para você como telespectador, enquanto lhe atrai para um entretenimento profundo, em seu próprio tempo e delicioso de assistir.

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