LeiaMax (Especial Halloween) | Terror a cinco centavos: conheça os Penny Dreadfuls

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Inglaterra, século XIX. As mudanças no modo de vida da sociedade tinham seu berço, com os primeiros passos da Revolução Industrial. Naquela época, além do movimento romântico, que exaltava as inspirações patrióticas na literatura, pintura e música, a arte começava a reproduzir a rapidez da vida e a retratar seus problemas, e para além disso, seus medos e terrores. Foi nessa época que surgiu uma série de contos de terror com preço e formato de publicação baratos, mas que, talvez justamente por isso, tenha ganho uma extrema popularidade, sendo responsáveis inclusive por clássicos da literatura que chegaram até nossos dias. LeiaMax abre a semana com os Penny Dreadfuls, os contos de terror da Inglaterra vitoriana que muito contribuíram para a cultura pop atual.

Dos Penny Dreadfuls a Penny Dreadful…

O Sweeney Todd de Burton é um dos melhores exemplos da atualidade dos Penny Dreadfuls.

É interessante que se note uma pequena diferença nos Penny Dreadfuls, como eram chamados os contos sobre assassinatos, madames da alta sociedade com punhais, maldições e todo tipo de sordidez que assustava a sociedade vitoriana daquela época, sobretudo por seu sucesso com a população mais jovem e mais pobre, e os chamados Penny Bloods, versões mais tardias dos dreadfuls, mas com um teor, digamos mais “leve” dos que os primeiros.

Os dreadfuls eram publicações que se pode chamar de rústicas. Custando em média 1 penny, algo em torno de 5 centavos, em valores atuais, em geral, tinham de 8 a 16 páginas, o que em jargão editorial é referido como livros de 1 a 2 cadernos. Citando o meio editorial, ainda se pode dizer que eram rústicos, pois não havia uma boa diagramação do texto, com cortes em meio de linha, margens não delineadas, uma falta recorrente de revisão, embora as construções de frases possuíssem até um bom grau descritivo, mas era recheado de erros tipográficos, ou melhor dizendo, de digitação. Mesmo assim, vários desses contos fizeram enorme sucesso entre a população britânica, e algumas dessas histórias chegaram até mesmo aos dias de hoje, como O colar de pérolas, de 1846, mais conhecido nosso como Sweeney Todd – o barbeiro demoníaco da Rua Fleet, cuja história foi adaptada pelo diretor Tim Burton e estrelada por Johnny Depp.

As primeiras publicações dos dreadfuls foram feitas pelo editor Edward Lloyd, sendo a primeira obra do gênero não oficial Lives of the most notorious highwaymen, footpads and murderers, de 1936, que se trata de uma coletânea de contos dos mais infames criminosos britânicos da época. O livro é um perfeito exemplo da rudeza das edições, como a história de Grimes Bolton, o canibal, que é interrompida e não possui continuidade na próxima página, já iniciando outro conto, o de William Wells, o salteador.

Várias outras histórias se destacaram, como A assassina acidental, de Eugenia Mooney, ou o estrondoso sucesso Ela a exilada; ou A Cigana de Rosemary Dell. Uma novela de interesse amedrontador, de Thomas Peckett Prest, atribuído autor de outro sucesso ainda atual, O Holandês Voador. 

A obra publicada por Lloyd é o que se pode chamar de rústica.

De fato, as histórias dos Penny Dreadfuls permaneceram na cultura de entretenimento durante todo o século 20 e adentraram o século 21, sendo o mais recente exemplo a série Penny Dreadful, criada por John Logan, que reunia, além da atmosfera dos contos virorianos, clássicos da literatura, como o Frankenstein de Mary Shelley, Dorian Grey, de Oscar Wilde, Dracula, de Bram Stoker, e vários elementos da literatura gótica daquela época, que influenciou quase todos os dreadfuls publicados. A série inclusive pegou elementos mais sutis do clima daquela época, como o poeta camponês John Clare, cujo poema mais conhecido, Eu sou, foi inclusive recitado em seus primeiros versos na série. Frankenstein e Clare serão melhores abordados nos demais posts do especial Halloween de LeiaMax, além de outra obra que, se não pertence ao pseudo gênero dos dreadfuls, daria uma ótima, escrita por Érico Veríssimo, Incidente em Antares.

Fato é que os penny dreadfuls ainda permeiam o imaginário e influenciam as criações da atual cultura pop. Não é a toa que obras como The Walking Dead, nas séries e HQs, I am a hero Helsing, nos mangás, bandas como The Highwaymen, de 1985, e Penny Dreadful, de 2010, além de inúmeros livros, mostram que o vigor do terror das publicações consideradas periódicos para garotos, ainda está longe de se acabar. Para quem se interessa pela leitura, a maior parte dessas obras encontra-se (em inglês, infelizmente) em domínio público, podendo serem lidas em formato digital até mesmo no site da Biblioteca Britânica.

A versão do Drácula de Friedrich Wilhelm Murnau e Henrik Galeen.

Outra influência presente dos dreadfuls são os filmes de terror das primeiras décadas do século passado. Filmes imortalizados, como The Black Cat, de 1933, Nosferatu, de 1922, e o bizarro Freaks, de 1932, são exemplos do alcane daquele gênero já em outra mídia.

E se você quiser entrar no clima do Halloween, melhor começar pelos clássicos.

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