Análise | Bohemian Rhapsody

Rate this post

O Queen sempre foi e sempre será uma banda de muitas nuances, tudo ao picos dos sentidos, tal qual se pode fazer em uma música clássica, com o primeiro movimento geralmente presto, o segundo adaggio, o terceiro crescente para o grande finale. Isso tudo com fugas, imitações, trítonos e acordes suspensos e diminutos e muito rock n roll, que quando juntos, entretanto, fazem da peça uma verdadeira obra de arte incomensurável em palavras. Bohemian Rhapsody, biografia cinematográfica da banda britânica, chegou aos cinemas para trazer tudo isso que o Queen representa para as telonas. E o resultado é um filme cheio de nuances, para cima e para baixo (entenda-se para o bem e para o mal), tal qual esperaríamos, contudo, com vários arranhões superficiais, a projeção não reproduz toda a grandeza da banda que o inspirou.

O filme traz um momento icônico da banda como primeiro ponto de virada: a apresentação no Live Aid de 1985, naquela época uma apresentação de caráter homérico, em que o Queen roubou a cena com o momento épico em que o vocalista Freddie Mercury regeu a plateia do estádio inteiro em uníssono. A partir daí, construímos como o Queen chegou ao seu apogeu e queda parcial, sempre guiados pela personalidade de Freddie.

Um momento épico no filme e na vida real.

Temos então, a clássica reconstrução dos fatos, desde os primeiros anos da banda de colegas de faculdade até o icônico show citado acima, mostrando as turbulências da banda e, especialmente, de Freddie com a EMI para lançar a música título do filme como single, o que para a época era absurdo, dado tanto ao caráter experimental quanto ao tempo muito longo par as rádios. Também vemos o relacionamento de Mercury com sua eterna amiga, esposa e confidente Mary Austin (Lucy Bointon), além da relação do vocalista com seus pais e sua herança parsi, já que o cantor nasceu em Zanzibar, hoje Tanzânia, e com seus companheiros de Queen.

Um dos pontos altos do filme é, com certeza, a atuação de Rami Malek como Freddie. O ator mostrou suas qualidades, emulando bem a introspecção de Freddie fora do palco, fruto do bullying de sua infância, e que contrastava com sua presença grandiosa à frente da banda. Nos palcos, de fato, a performance de Malek foi um tanto comum, embora veja-se que ele tenha se esforçado para reproduzir mimeticamente os trejeitos de Mercury. O resto da banda merece crédito por suas caracterizações, até por que o filme não dedica muito tempo ao seu desenvolvimento como indivíduos (John Deacon, em especial, tem uma presença muito genérica e quase imperceptível no filme). O filme é bom em mostrar um filme de banda, porém o Queen, como dissemos no início dessa análise, é muito mais. Ver também como surgiram músicas tão clássicas como We will rock you nos dá um sentimento de arrepio maior, embora o filme abuse de clichês com as letras e Freddie e algumas canções surgem como um relampejo de genialidade que, sabemos, não condizem com a realidade.

John Deacon (Joseph Mazello), Roger Taylor (Ber Hardy), Freddie Mercury (Rami Malek) e Brian May (Gwilym Lee).

Ao tentar mostrar tantos pontos importantes do Queen e de Freddie, o filme é sempre superficial. A sexualidade de Freddie, o relacionamento com Mary e, até mesmo, o relacionamento com Jim Hutton, são mostrados de modo muito aquém do que lemos em sua biografia escrita por Lesley-Ann Jones. A fase de Smile, a briga com a EMI e com Ray Foster (Mike Myers em um irônico papel similar ao seu mais famoso personagem em O mundo de Wayne, em que era fã declarado do Queen), em que A night at the Opera foi lançado como um ultimato da gravadora para a banda, a relação com os outros integrantes, tudo é superficial e estático demais, e poderia funcionar com outra banda, mas nunca com o Queen. Outro ponto baixo é o personagem de Paul Prenter, o “vilão” do filme, e toda a incorreção histórica que ele traz à história da banda. Aliás, incorreção histórica é algo presente no filme, além de efeitos dramáticos que distanciam a obra de uma biografia e a aproxima mais de um filme hollywoodiano.

É bom que se diga que o filme dirigido por Bryan Singer/Dexter Fletcher possui a estrutura clássica de cine biografias em três atos: ascensão, queda e volta triunfal. Aliás, o clichê é algo extremamente recorrente, e embora o uso de clichês não seja algo necessariamente ruim em um filme, no caso de Bohemian Rhapsody tira muito de sua dramaticidade pretendida. A trilha sonora, que além, obviamente, do Queen, traz boas referências ao Cream e a era disco.

Infelizmente, o filme precisava de um vilão.

Bohemian Rhapsody é um bom filme, enquanto filme, mas deixa a desejar em alguns pontos quando o vemos como cine biografia. Entretanto vale a ida ao cinema, especialmente por que o filme e deixa uma sensação, após seu final, de “não me pare agora”, pois o “Show deve continuar”.

Nota:

Leave a Reply

%d bloggers like this: