Análise | Legião

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“Imaginem um mundo mais escuro que o nosso, onde a arte é só uma força destrutiva. O motor para a guerra e para a aniquilação.”

Todas as músicas já foram tocadas? Já vimos todas as cores existentes? Conhecemos todas as formas possíveis? Para o nosso bem, não, porque quando esses três itens são descobertos, uma legião de horrendas criaturas invadem o nosso mundo e trazem o inferno com elas. Essa é a premissa da bela graphic novel Legião, escrita e ilustrada pelo talentoso Salvador Sanz. O artista, criador de obras como Angela Della Morte e Noturno (todas já publicadas no Brasil, assim como Legião), é dono de um lindo e detalhista traço, assim como uma poderosa e claustrofóbica narrativa, que fazem da leitura do material uma experiência perturbadora. 

Quando a pintora Azul descobre uma cor inédita, batizada Ultramal, e a escultora Alicia Parodi modela uma torre que, coincidentemente, foi pintada por Azul em uma exposição, o caminho para o apocalispe já estava quase completo. Eis que o jovem roqueiro Felix, em um transe, toca sua guitarra sem parar por um dia inteiro, gerando uma melodia que conduz uma horda de seres adoradores de arte e sedentos por sangue para o nosso plano. Usando corpos humanos para criar a torre de Parodi, as criaturas perseguirão Azul e um grupo de sobreviventes que inclui Felix a fim de se apoderar da cor criada por ela.

Em momento algum o leitor sentirá esperança ao longo da leitura de Legião, em que referências a Hellraiser, H.P. Lovecraft e até um pouco de O Bebê de Rosemary podem ser sentidas. Tanto os cenário quanto o design das criaturas lembram essas obras, com autor entregando um tom aterrorizante e gerando cenas gore. A riqueza nos detalhes do desenhos é gritante e o Sanz faz um belo trabalho com luz e sombras. A HQ ainda é lindamente pintada (não com a Ultramal), iniciando-se em preto e branco e passando a ser colorida assim que uma chuva de sangue desaba, anunciando a morte da humanidade, e voltando ao preto e branco no pessimista e chocante desfecho. A obra ainda serve como estudo para a função da arte para a sociedade

Sobre os personagens (humanos), muito pouco é desenvolvido para o leitor, fazendo com que pouco se importe com que morre e vive. Apenas Felix e Azul possuem certo destaque, enquanto outros membros do grupo de sobreviventes servem apenas como carne a ser abatida de maneira violenta. O roteiro sofre com a pouca quantidade de páginas, cortando momentos que renderiam bons debates e criando situações inverossímeis, como a cena que o grupo descobre o que está havendo através de um louro(!), mas felizmente não compromete a experiência no final.

Lançada na Argentina em 2006 pela Editora Livrea e aqui no Brasil em 2014 pela Zarabatana Books (podendo ser adquirida aqui), Legião é uma ótima pedida para quem procura um bom terror ilustrado. Uma dica: para a leitura ficar mais imersiva, coloque Rammstein num bom volume e apocalipse estará completo.

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