Análise | O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos

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A história do Quebra-Nozes carrega consigo um peso gigantesco pelo significado secular que o permeia. É um ballet composto por Tchaikovsky com base num conto infantil criado por  E. T. A. Hoffmann, e sua força faz com que ao menos as diretrizes principais da história sejam de conhecimento do grande público. É indubitável, porém, que a narrativa seja mais conhecida no mundo do ballet, onde as encantadoras músicas e melodias se encontram para fornecer ao telespectador grandes e memoráveis espetáculos.

Como bailarina, fiquei ansiosa para ver O Quebra Nozes e os Quatro Reinos, a adaptação cinematográfica que inicialmente foi dirigida por Lasse Hallström, mas depois passou para Joe Johnston, dando aos dois os créditos da direção. Tudo o que se correlaciona com a história do Quebra Nozes geralmente possui uma aura de magia, encantamento e um elemento lúdico fortíssimo, que envolve crianças e adultos. Com o filme protagonizado por Mackenzie Foy não foi diferente.

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Sem sombra de dúvidas, o que mais encanta no filme, desde o começo, é o estonteante visual. As cores, a riqueza nos elementos, a fotografia maravilhosa e a estruturação visual fazem com que o telespectador facilmente embarque na proposta da história. A riqueza visual só cresce à medida em que o filme se desenrola, e tantos as imagens de reinos mágicos quanto os cantos de uma casa que guarnece uma festa de Natal são bonitas ao ponto de emocionar.

A contraposição do visual com os demais elementos nos faz perceber o que fora priorizado para a construção do longa: as expressões faciais, os cenários, os figurinos responsáveis por trazer uma caracterização forte e as grandiosíssimas paisagens. É isso que faz com que o filme surpreendentemente se pareça tanto com um espetáculo de ballet: as falas são reduzidas, as palavras são substituídas por expressões, linguagem corporal e pelos elementos visuais e lúdicos que tomam para si a tarefa de narrar a história.

Apesar de não ter muitas cenas dançadas (pouquíssimo tempo de tela se dedica ao elemento da dança, ao contrário do que esperava pela presença de Misty Copeland no elenco, uma renomadíssima bailarina do American Ballet Theatre), toda a aura da narrativa nos faz sentir a proximidade com um espetáculo de dança. O sobrepujamento dos cenários, da linguagem corporal e dos figurinos nos aproxima do que inicialmente fora proposto por Tchaikovsky.

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No entanto, apesar de ter um elenco arrebatador, com grandes nomes da atuação, a construção dos personagens deixa a desejar. Morgan Freeman é Drosselmeyer, o padrinho da protagonista que aparece brevemente na história. Keira Knightley, na interpretação da Fada Sugar Plum, pode ter traços que se aproximem de uma certa complexidade, mas que no decorrer da narrativa se perdem. A poderosa Helen Mirren tem em mãos Mother Ginger, uma personagem que poderia ser extremamente densa e bem construída, mas o roteiro raso não permitiu sua evolução dentro da narrativa.

Nenhum dos personagens, na verdade, atinge uma certa evolução, a não ser a protagonista Clara, que consegue se encontrar na viagem pelos Quatro Reinos e aprender a lição que sua mãe (que faleceu, mas antes criou todo o universo mágico percorrido pela filha) gostaria de lhe ensinar: a de perceber a própria bravura e encontrar todos os elementos necessários para prosseguir com a própria história dentro de si mesma. A mãe, inclusive, é um problema por si só: sua morte é mal explorada, o relacionamento com os filhos é parcamente exposto e o sobrepujamento de Clara diante dos outros dois irmãos aos olhos da mãe beira o irrealismo.

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O roteiro simples e raso, portanto, permite o destrinchar apenas das desventuras de Clara. Os demais personagens, envoltos na dualidade do bem e do mal, não impressionam, surpreendem ou atingem o ápice necessário para se destacar na história. Os Quatro Reinos, narrados no próprio título do longa, são pouquíssimo mostrados (e no que se refere ao ballet, a diversidade e riqueza dos reinos são muito explorados ao longo do espetáculo). O telespectador acaba mais arrebatado pelo visual criado pela fotografia de Linus Sandgren design de produção de Guy Hendrix Dyas e pelos maravilhosos figurinos de Jenny Beavan do que exatamente pela riqueza da história.

O filme ainda consegue trazer modificações expressivas e certa originalidade para a história clássica do Quebra Nozes, modificando elementos. Eles não foram, no entanto, suficientes para impressionar com o enredo, apesar de se atingir o lúdico e a beleza através dos componentes visuais.

Com o peso de uma história secular nas costas, um show visual para os telespectadores e um roteiro de alcance limitado, provavelmente para a interpretação de um público mais infantilizado, os problemas de enredo de O Quebra Nozes e os Quatro Reinos não apagam o deleite da experiência de ver um mundo tão lindo e mágico.

Nota: 

 

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