Análise | O Mundo Sombrio de Sabrina

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Os que cresceram no decorrer dos anos 2000 tiveram como companhia nas tardes em frente à TV as aventuras leves, engraçadas e espirituosas de uma bruxinha que não queria abrir mão da vida humana para se dedicar totalmente ao mundo bruxo e gostava de usar seus poderes para ajudar os outros. Sabrina, a Aprendiz de Feiticeiraprotagonizado por Melissa Joan Hart, foi um seriado televisivo de sucesso que teve seu primeiro episódio lançado em 27 de setembro de 1996 e se pautou numa HQ da Archie Comics, de 1962.

 

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A versão de 1996 de Sabrina

 

Nas telas, a história de Sabrina era contada de forma infantil, lúdica, engraçada e ingênua. Os elementos que se correlacionavam com a bruxaria geralmente eram tratados de forma cômica e superficial. O tom de comédia, o foco no romance e nos problemas de adolescente de Sabrina, assim como o uso de magias simples, com um estalar de dedos e barulhinhos engraçados, desviava a atenção de qualquer análise acerca do viés bruxo.

 

Foi pautada na nova versão de 2014 que a série original Netflix O Mundo Sombrio de Sabrina foi projetada. Esqueça, portanto, toda a ingenuidade, magias inofensivas com um estalar de dedos e a interpretação rasa acerca da bruxaria. Sabrina vem aí com todos os elementos satanistas, de bruxaria, magia negra, morte, sacrifícios humanos, degolação, canibalismo e a presença mortificante de satanás em inúmeros momentos da trama.

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Para quem acompanhou o seriado dos anos 90, o primeiro contato com o original Netflix é, sem dúvidas, chocante. Primeiramente porque a atriz que interpreta a Sabrina da nova versão, Kiernan Shipka, é indubitavelmente perfeita para o papel: sua aparência denota doçura, infantilidade e até uma certa fragilidade. No entanto, ao conhecer a personalidade da nova Sabrina, percebemos que é exatamente com esse ar angelical que a personagem invoca uma força extraordinária, poderosa, determinada e firme ao comandar rituais satânicos, presenciar atrocidades e enfrentar o próprio demônio.

Todos os elementos do seriado, desde o primeiro episódio, demonstram como a entonação em nada se parece com a versão que se passou. As características estéticas do Mundo Sombrio de Sabrina são muito peculiares, e sem dúvida ajudam a construir a narrativa. A câmera está sempre com as bordas desfocadas, trazendo uma sensação (propositalmente) angustiante. As cores são fechadas, com um tom desbotado, e colorações como vermelho e preto estão sempre mais vívidas. Os cenários, mesmo em situações mais corriqueiras (como Sabrina conversando com o namorado em frente a sua casa) são sempre tenebrosos: vazios, com uma leve névoa, escuro, árvores fantasmagóricas, lápides. Observar que luz, cenário e fotografia são cuidadosamente pensados para aumentar ainda mais o clima de terror no seriado e trazer a sensação de que algo aterrorizante está na iminência de acontecer nos faz perceber o cuidado na construção da série.

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Outro ponto positivo em Sabrina é o resto do elenco. Se Kiernan já nos encanta com sua interpretação, os demais personagens não deixam a desejar. O tempo de tela faz com que seja possível construir mais minuciosamente a personalidade de cada um, suas angústias e problemas e, consequentemente, trabalhar sua evolução e crescimento individual. Suas tias, Hilda (Lucy Davis, que compôs o elenco de Mulher Maravilha) e Zelda (Miranda Otto) trazem dualidade e certo equilíbrio nos laços familiares de Sabrina. Enquanto Hilda é extremamente maternal, Zelda é fria e tenta transparecer distanciamento. Ambas, no entanto, à sua forma, são preocupadas e zelosas com a sobrinha, e enfrentam dilemas na relação entre irmãs e na forma como veem a vida.

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O personagem Ambrose

Ambrose (Chance Perdomo) é um dos personagens que carrega, talvez, o maior brilhantismo em sua construção. Há quem diga que sua personalidade e relação com Sabrina substituem a ausência de fala e interação com o gato Salem (que classicamente conversava com a dona e dava conselhos). Ambrose vive em prisão domiciliar na casa das tias porque tentou explodir o Vaticano, e dentro de si coexistem inúmeras facetas. Como primo, ele é sempre ágil e prestativo a ajudar e embarcar nas aventuras de Sabrina. Tem um tom sarcástico, é extremamente esperto e peculiar. Com relação ao seu íntimo, no entanto, é uma alma atormentada, sozinha, com medo de morrer no esquecimento e com a vida pausada, preso numa casa, sem motivos que lhe façam estimar a própria existência.

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Susie, Rosalind e Harvey

Os amigos de Sabrina, Rosalind (Jaz Sinclair) e Susie (Lachlan Watson) também têm um ótimo espaço para o destrinchar de suas próprias problemáticas. Rosalind vive angustiada com seus problemas de visão que podem lhe levar à cegueira e com sua falta de fé, enquanto Susie vive atormentada por não se encaixar nos padrões heteronormativos, não conseguir alcançar o autodescobrimento e se angustia pelo preconceito e incompreensão da sociedade.

Também há um extremo êxito na representação de Harvey Kinkle (Ross Lynch), namorado de Sabrina. Em meio aos demônios, o peso de terror e dramaticidade que envolve a vida da própria protagonista, Harvey surge como um aliviante elemento de ingenuidade e benevolência. Harvey é cegamente apaixonado pela namorada, leal aos próprios princípios e não percebe a aura satânica que a envolve. Possui, no entanto, uma correlação com o plano satanista explicado no decorrer da série.

Há outros personagens que se encaixam na faceta bruxa de Sabrina, como Prudence (Tati Gabrielle), Agatha (Adeline Rudolph) e Dorcas (Abigail F. Cowen), cruéis irmãs companheiras da escola satânica, e Mary Wardwell (Michelle Gomez, a Missy de Doctor Who), que se incumbe da tarefa de entregar a bruxinha para as garras de Satã.

Sem dúvidas, O Mundo Sombrio de Sabrina possui poucos elementos que se coadunam com o seriado original, o que não é, de forma alguma, algo negativo. É capaz de prender o telespectador pelos muitos pontos positivos em sua construção, e traz uma proposta diferente do original. O roteiro é sólido, os personagens conseguem atingir a complexidade, e os sustos e a aura angustiante trazidas pelo satanismo, trevas e o peso de satã na vida de Sabrina são convincentes. Há espaço para o fortalecimento de Sabrina, seu amadurecimento como bruxa e como adolescente e, ainda, de empoderamento e feminismo muito claros. Sabrina não precisa de alguém que lhe salve (ela salva o próprio namorado), não precisa estar de mãos dadas com alguém para enfrentar desafios (ela os enfrenta sozinha, com um olhar obstinado), é autossuficiente, segura e determinada. Tudo isso, aliado às falas da Sra. Wardwell sobre a imaturidade, egoísmo e opressão da sociedade patriarcal (com um delicioso tom sarcástico) faz com que, apesar de certo medo, Sabrina valha cada episódio.

 

Nota: 

 

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