Análise | Explicando Animais Fantásticos e os Crimes de Grindelwald (COM SPOILERS)

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CONTÉM SPOILERS!

Com o lançamento de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 em 2011, os fãs absurdamente leais do bruxo esperaram cinco anos para que o universo cinematográfico do mundo mágico escrito por J. K. Rowling  fosse reinaugurado, através do lançamento do filme Animais Fantásticos e Onde Habitam, em 2016. O filme se passa em 1926 (54 anos antes do nascimento de Harry Potter, que se deu em 1980) e conta a história de Newt Scamander, um jovem que, na busca por seus amados animais fantásticos, incompreendidos e excêntricos acaba cruzando seu caminho com o bruxo das trevas Grindelwald e seus planos e métodos implacáveis. No primeiro filme, vemos uma narrativa intrinsecamente introdutória, que apresenta os elementos e personagens que permearão os próximos 4 filmes (já que, segundo confirmado, Animais Fantásticos terá sua história contada por 5 longas).

O primeiro filme da franquia é visualmente bonito, tem cenas de ação grandiosas e convincentes, é divertido, traz um extremo saudosismo, elementos mágicos vastamente conhecidos pelos fãs (e que acalentam o coração), mas não consegue apresentar um plot que seja satisfatoriamente complexo. A promessa da apresentação de uma história sólida, que reúna elementos consistentes e apresente os motivos que ensejaram a necessidade de cinco filmes, reabrindo o universo mágico, ficou nas mãos da continuação, com Animais Fantásticos – Os Crimes de Grindelwald.

Photo of Newt Scamander and Jacob Kowalski on the streets of Paris

Dois pontos precisam ser analisados para que uma conexão seja feita, e o primeiro é o findar de Animais Fantásticos e Onde Habitam. No primeiro filme, descobrimos que Credence (Ezra Miler) é um obscurial, e que Grindelwald (Johnny Depp) conta com o rapaz para que o seu plano de dominação dos bruxos e subjugação dos trouxas seja concretizado. Vemos, ainda, que Newt Scamander (Eddie Redmayne) tenta proteger Credence, evitar que o rapaz seja seduzido por Grindelwald, reunir os animais fantásticos e evitar confrontos irreversíveis. O final do filme nos traz um embate causado pelo erro de Grindelwald ao tentar manipular Credence, a ira do obscurial e a tentativa de Newt de derrubar o bruxo das trevas, tirar Credence do alvo das forças do mal e do temor do Ministério. Durante o grande conflito assim originado, terminamos o filme sem saber se Credence morreu ou sobreviveu aos ataques. Grindelwald é capturado. Somos apresentados, ainda, a mais três personagens importantes: Jacob (Dan Fogler), Tina (Katherine Whaterston) e Queenie (Alison Sudol).

Com as explicações dadas com o final do filme e as informações trazidas antes do lançamento da sequência, vamos ao segundo ponto a ser analisado: o número de personagens e histórias. Temos o romance entre Tina e Newt, pouco desenvolvido. O relacionamento proibido pelas leis mágicas entre Queenie e Jacob, que ficou em aberto. Leta Lestrange (Zoë Kravitz), que é apresentada ainda no primeiro filme, como antigo amor de Newt e atual noiva de seu irmão, Teseu Scamander (Callum Turner), o que trouxe a necessidade de desenvolvimento de mais dois personagens. Credence, que, como mostrado nos trailers, sobreviveu, e seu relacionamento com Nagini (Claudia Kim), que, não bastasse ser mais uma personagem acrescentada, é, ainda, a cobra de Voldemort (o que carece de muitas explicações). Para fechar o pacote, ainda temos a história basilar de todo o segundo filme: a presença de Alvo Dumbledore (Jude Law), as passagens em Hogwarts que mostram Leta e Newt novos e o relacionamento do professor com Grindelwald.

Só pelo enredo é possível extrair a problemática principal do filme: o excesso de histórias, informações, dados, personagens, correlações e promessas. O filme precisaria entregar uma conexão entre todos esses personagens, trazendo de forma satisfatória a participação de cada um e construir um enredo que destacasse os crimes de Grindelwald (que, afinal de contas, é o prometido no próprio título), a presença de animais fantásticos e a relevância de Alvo Dumbledore e Newt Scamander.

J. L. Rowling,nesse ponto, falha como roteirista e mostra o que realmente sabe fazer: escrever livros complexos e bem amarrados, mas que não são comportados dentro de um modelo de roteiro de cinema, que deve ser conciso, explicativo, ter uma temática principal e bem resolvida e explicações para os telespectadores.

Animais Fantásticos 2 é um filme que muito promete, traz inúmeras referências, revelações, surpresas e problemáticas que poderiam ser brilhantemente comportadas dentro de um livro de mais de 300 páginas. Para a tela do cinema, no entanto, a sensação é a de que estamos assistindo a várias histórias aleatórias interrompidas, sem um desenvolvimento, personagens que se perdem e enredos paralelos que poderiam ser muito bem explorados se não estivessem dentro de uma grande trama principal com várias tramas menores.

Gellert Grindelwld and his follower, Vinda Rosier

Os crimes de Grindelwald, título do segundo filme, não são mostrados. Grindelwald atua mais como um líder persuasivo, que reúne um secto de seguidores alienados por uma ideia maquiada de supremacia bruxa e dos malefícios trazidos pelos trouxas. A relação de Grindelwald com Dumbledore, que deveria ser plano de fundo da trama, não é construída de forma satisfatória. Dumbledore, inclusive, é um personagem subutilizado, que mais parece fazer uma ponta nostálgica do que, de fato, somar para a história que está sendo contada. Temos um vislumbre do passado dos dois no espelho de osejed, que pouco explica para o telespectador que não é fã. Dumbledore guia Newt para o combate com Grindelwald, alegando não poder enfrentá-lo, mas o motivo só é explicado no final (o que, sinceramente, pouco contribui. Se tivesse sido explanado no início, teria sido muito mais relevante para o enredo).

Young Albus Dumbledore

É com Dumbledore que a aparição de Hogwarts tem conexão no filme, momento, sem dúvidas, extremamente impactante para os fãs. É emocionante e arrepiante ver a imponente figura do castelo, com as já tão familiares salas, terrenos, salão comunal e estudantes enfileirados em suas vestes, com sede de convencimento. É um lindo momento que, dentro de um roteiro mais bem construído, seria ainda mais arrepiante. De qualquer modo, não deixa de ter extrema importância para os fãs.

Ao menos os animais fantásticos que fazem parte do título são satisfatoriamente mostrados. Criaturas mágicas e impressionantes fazem parte da trama, e o impressionante trato de Newt com os animais, evidenciando toda a sua paixão, é um ponto positivo e bem construído dentro do filme.

Leta Lestrange foi motivo de alarde nos trailers e na divulgação pré-filme, mas é incomodamente mal desenvolvida. A relação com os dois irmãos não é explicada (por que era apaixonada por Newt na escola, mas acabou noiva de seu irmão?), as nuances de maldade e bondade da personagem são parcamente explicadas e sua morte não possui significado suficiente para se tornar, de fato, relevante.

Nagini era outra personagem que parecia muito prometer, mas se perde na sopa de inúmeras histórias paralelas. Sobre elas, só vemos sua participação na missão de Credence de ir atrás da própria identidade e temos uma brevíssima explicação sobre sua origem. No final das contas, Nagini não se junta às forças do mal, o que nos faz pensar o que levou a maledictus a ser a fiel companheira de Lord Voldemort.

Queenie é uma personagem a priori controversa, que poderia ter a sua obsessão por Jacob mais bem explorada, mas, novamente, perde a relevância num emaranhado de histórias. Sua progressiva (e levemente súbita) loucura faz com que sua junção a Grindelwald seja impactante por todo o histórico da personagem, mas não exatamente surpreendente.

Newt Tina continuam não tendo espaço para o desenvolvimento de seu romance. Newt desprende seu tempo, a pedido de Dumbledore, na busca por Credence, tentando salvá-lo de si próprio, do Ministério e de Grindelwald. O afastamento do casal se deu em virtude de um mal entendido, por Tina achar que Newt se casaria com Leta e acabar arranjando um namorado auror (que é citado, mas sequer aparece).

Nicolau Flamel, que prometia ser um personagem de complexidade explorada, acaba se perdendo e não tendo qualquer propósito. Até mesmo a pedra filosofal aparece de forma desnecessária, e Nicolau é colocado no filme como puro elemento nostálgico, com nome de peso, mas nenhuma relevância.

Numa cena que tenta reunir todos os personagens, no túmulo dos Lestrange, temos a narrativa de uma levemente desconexa história que engloba a morte de um irmão que Leta, que inicialmente se pensava que era Credence. Na cena, temos Jacob, Newt, Tina, Nagini, Credence, Yusuf e inúmeros personagens confusamente conectados. Revela-se que, na verdade, Leta, quando criança, acaba matando por engano o próprio irmão ao trocá-lo por um outro bebê durante uma viagem de navio. O outro bebê que fora trocado era Credence. Mas como saber a identidade do rapaz de sua família se perdeu na viagem?

Temos, então, uma cena de reunião de Grindelwald com seus seguidores, em que toda a meticulosidade do personagem é demonstrada. Há, em seguida, uma cena de embate entre Grindelwald e aurores, onde temos um momento impactante de luta, junção das forças dos bruxos do bem com feitiços de proteção e um ápice para uma história que por muito se alongou de forma explicativa.

Credence, então, acaba sendo a peça central da narrativa, responsável por unir os demais personagens. Quem é Credence? Qual sua origem? Depois de falhar na persecução de sua própria história, Credence é envolvido pelo discurso de Grindelwald. Numa das cenas finais, temos, talvez, a maior revelação do filme: o bruxo das trevas afirma de Credence é, na verdade, Aurelio Dumbledore, irmão de Alvo, trazendo uma inédita história sobre a família Dumbledore. As linhas temporais, no entanto, estão meio confusas: Aurelio nasceu em 1909. A mãe de Dumbledore faleceu em 1899, e o pai morreu em Azkaban. Como seria possível, então, que Aurelio realmente existisse? É um truque de Grindelwald ou é, de fato, verdade?

Perceba, no entanto, que tais questionamentos só são profundamente refletidos quando se é fã e possui um embasamento consistente com a leitura dos livros e o conteúdo dos 9 filmes anteriores (abrangendo os filmes originais de franquia). Para o telespectador comum, a árvore genealógica da família Dumbledore não está delineada. Tal ponto da narrativa, portanto, é confuso tanto para quem é fã quanto para quem desconhece o enredo. O que deveria ser uma explosiva revelação acaba sendo um confuso dado sobre o futuro da franquia. A revelação envolve, ainda, a presença de uma fênix, que é marca registrada de Alvo e da família Dumbledore.

A conclusão é que o filme foi extremamente ganancioso na tentativa de trazer mais histórias, mas falhou ao não conseguir contar quase nenhuma de forma satisfatória. Como um todo, é uma obra bonita, nostálgica, que arranca emoção e impacto para fãs porque tem fan service aos baldes. Feitiços, o aparecimento de Hogwarts, Ministério da Magia, espelho de ojesed, bicho papão com contrafeitiço, o jovem Dumbledore, Newt e Leta nos terrenos da escola, a trilha sonora e o ambiente mágico. Tudo isso faz com que o filme possua relevância e seja capaz de envolver de forma inevitável. No entanto, falta maturidade de JK como roteirista, de Yates como diretor para controlar o jato de informações dado.

Fios soltos para mais três filmes, sem dúvidas, temos de sobra. A dúvida é saber se as histórias serão mais bem contadas, o roteiro mais organizado e o filme mais acessível não apenas para os fãs convictos, mas para aqueles que também querem a oportunidade de adentrar no mundo mágico.

 

Nota: 

 

One thought on “Análise | Explicando Animais Fantásticos e os Crimes de Grindelwald (COM SPOILERS)

  • 27 de November de 2018 at 10:10
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    Faltou um Easter-egg q pelo visto será muito importante para o desenrolar da historia toda. Jacob. Vamos aos fatos.
    PRIMEIRO: No esconderijo de Flamel logo após Newt sair atrás de Tina, mostra Jacob tendo um pesadelo enquanto “vigiava” o Yusuf (sei la como escreve kkk). A camerâ mostra em detalhes a mão de Jacob com a cicatriz de um voto perpetuo. E isso ocorreu pouco tempo depois de Newt e Tina terem reparado e comentado sobre o mesmo tipo de cicatriz nas mãos do Yusuf. Um não bruxo poderia fazer isso? E fez com quem? E mais importante, qual é a promessa?
    SEGUNDO: Isso daria sentido a aparição repentina e fora de contexto de Quenie e Jacob na casa do Newt. Como ele correndo para explicar como o Obliviate nao funcionou com ele. A historia das memorias ruins não tem cabimento nenhum, só lembrar q Hermione fez isso com os pais dela que a AMAVAM, então apagaria memórias boas sim.
    TERCEIRO: será que a colaboradora de Grind encontrou Quenie por acaso, ou já estavam de olho nela?
    QUARTO: Quando Flamel e Jacob virão a profecia, mesmo sendo alertado para não ir ao cemitério ele foi direto para lá. Ele nao foi procurar Newt e Tina e dizer oq descobriu, foi p lá sozinho……
    QUINTO: Quando a parede abriu no tumulo dos Lestrange, ele foi o primeiro a descer sem se precaver e nao demonstrando medo das coisas, ou esperar um bruxo, com VARINHA em punho para se defender, tomasse a iniciativa. Com isso ele acabou fazendo todos entrarem no auditorio, e o próprio Newt diz a Tina que “aquilo tudo era uma armadilha, a Quenie na casa dele, e todos os fatos q os guiaram até aquele momento”.

    No final quando Dumbledore pergunta a Newt como ele conseguiu retirar a joia com o pacto dele com Grind, Newt responde que Grind nao dava importancia aos pequenos detalhes. Será que Jacob será o detalhe q passara despercebido por Newt. Uma amizade q sera a provada por seus lados nesta batalha, assim como Dumbledore e Grind (sem o relacionamento amoroso)????

    É só teoria. Mas quem sabe…. kkk

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