Análise | Animais Fantásticos e os Crimes de Grindelwald (SEM SPOILERS)

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Depois de dois anos de espera, finalmente fomos apresentados a continuação de Animais Fantásticos e Onde Habitam. O fim do primeiro filme nos prometeu a pormenorização de muitas histórias, a continuação de problemáticas sem resolução e a explicação de muitos fatos novos, que não foram satisfatoriamente trabalhados. O primeiro filme da nova franquia teve um tom introdutório, de apresentação de novos personagens e de um novo capítulo do universo. Para alguns, desagradou por não possuir uma história suficientemente complexa, mas, sem dúvidas, arrebatou o coração nostálgico dos fãs.

Em Animais Fantásticos e os Crimes de Grindelwald, a expectativa estava grande. Primeiramente porque os fãs esperam a explicação de muitos dos pontos mal resolvidos (talvez intencionalmente) do primeiro filme. Em segundo lugar, porque os trailers e materiais pré exibidos nos trouxeram muitas informações e personagens novos: Nagini, Leta Lestrange, Teseu Scamander, Hogwarts dos anos 20, Dumbledore jovem e o início da história entre Dumbledore e Grindelwald, que posteriormente eclodirá no famoso embate conhecido desde os livros originais da franquia.

O breve enredo que sinaliza o que o filme se propõe a mostrar já demonstra a complexidade da trama e a densidade das histórias contidas num único filme. O simples vislumbre da quantidade de informações é responsável por sinalizar um potencial problema. Ter J. K. Rowling como roteirista de Animais Fantásticos é, ao mesmo tempo, uma dádiva e um perigo: Rowling é acostumada com a escrita de livros extensos, que comportam, em mais de trezentas páginas, a narrativa de muitas histórias que, no fim, se entrelaçam e atingem um ápice surpreendente. Não é possível fazer o mesmo, no entanto, num roteiro dirigido para o cinema, em que informações concisas, explicativas e organizadas precisam ser entregues num curto espaço de tempo, trazendo um desfecho ao mesmo tempo impactante e claro.

O segundo filme da franquia, portanto, prometia contar: a história de Leta Lestrange e sua relação com os irmãos Teseu e Newt Scamander, a origem de Nagini, os crimes de Grindelwald, o romance entre Queenie e Jacob e Tina e Newt, a Hogwarts do passado, o Dumbledore mais novo, a trama de Credence como obscurial, o circo mágico, o Ministério da Magia francês, o embate entre Grindelwald e Dumbledore. Muita, muita coisa para um filme só.

O que se extrai de tudo isso é, portanto, uma história confusa, com muito fan service e partes que só têm sentido quando se é fã e carrega uma bagagem de sete livros e nove filmes. Tem, também, um pouco de desperdício por possuir histórias tão ricas na mão que acabam tendo toda a sua complexidade precocemente interrompida pela impossibilidade de desenvolvimento dentro de uma trama central. Ao tentar explicar muito, Animais Fantásticos 2 acaba não conseguindo explicar quase nada, e falhando ao ter tanta riqueza, mas se limitando a minutos contados de um tempo de tela que não é capaz de explorar todo o potencial.

Muitas coisas, também, não são entregues, como os crimes de Grindelwald, que dão nome ao filme. Grindelwald se apresenta mais como um líder meticuloso, manipulador e estrategista, mas as suas ações no segundo filme têm um tom muito mais introdutório, que sugerem a possibilidade de cometer crimes no futuro, mas não no presente. Sua relação com Dumbledore é parcamente explorada, e o próprio Dumbledore é subutilizado. Basicamente lida Newt na busca por Credence, informa que não pode lutar contra Grindelwald e comanda um momento nostálgico, mas pouco significativo para a trama.

Gellert Grindelwld and his follower, Vinda Rosier

Queenie, Jacob, Tina e Newt, que tiveram suas histórias em aberto no primeiro filme, não conseguem atingir uma resolução satisfatória. A trajetória de Queenie é confusa, e os fatos que a levam para o momento do segundo filme são pouco explicados e convincentes. Nagini também não consegue ter sua origem bem explorada. Leta Lestrange não entrega a história que prometia. Mais uma vez, a maioria das narrativas parecem introdutórias pela quantidade de elementos já apresentados.

Nicolau Flamel também é apresentado nos trailers, e se esperava uma participação mais significativa. No entanto, mais parece que a presença de Flamel se dá exclusivamente pelo peso de seu nome, pelo saudosismo de sua história e o impacto que traz para a narrativa. Concretamente, no entanto, sua história também se perde e sua presença é desnecessária.

As cenas que envolvem Hogwarts, animais fantásticos, artefatos mágicos como o espelho de ojesed, a pedra filosofal, feitiços de poteção, aparatação, testrálios, bicho papão, contrafeitiços, salas de aula e lugares familiares são fantásticos, acalentam o coração nostálgico dos fãs e impressionam. Combinado com um lindo visual, efeitos especiais impressionantes e uma trilha sonora arrebatadora, o filme é belo e impressionante.

Young Albus Dumbledore

Não deixa, no entanto, de ser confuso e trazer a sensação de decepção. Não temos um bom desenvolvimento dos personagens, uma narrativa explicativa para fãs e telespectadores que agora adentram no universo mágico. O filme muito promete, tenta entregar mas não consegue. Até mesmo a principal revelação do filme, contada no final, parece confusa.

No entanto, os elementos mágicos arrebatadores e o potencial de histórias brilhantes sem dúvidas existem. As falhas no roteiro abarrotado e nas informações concomitantes podem ser resolvidas nos próximos filmes da franquia, que ainda têm muito para contar, mas, também, a necessidade de organização e prioridades. Num universo mágico tão amplo, a cautela na entrega de informações também é importante.

O transporte para o mundo mágico que se ganha ao entrar na sala e embarcar no cinema continua sendo arrebatador. Animais Fantásticos e os Crimes de Grindelwald tem falhas que podem ser utilizadas como aprendizado no roteiro e direção, trazendo para a franquia a vastidão do potencial que é capaz de alcançar, mas ainda consegue ser belo, surpreendente e consegue passar a velha mensagem de Hogwarts está sempre disponível para aqueles que dela precisarem.

 

Nota: 

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