Greta Gerwig e Noah Bambach | A fetichização da vida privada

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A cultura das celebridades leva a um fenômeno muito interessante no meio das artes, a acoplação das imagens de artistas. Quantas celebridades se tornaram visíveis por serem namorad@s, cônjuges ou ex de alguma outra? Jay-Z e Beyoncé, Rihanna e Chris Brown … mas também uma série de outros artistas de diversos segmentos. Um desses casos ocorreu com a dupla de roteiristas, diretores e companheiros Greta Gerwig e Noah Baumbach. Ele surgiu como roteirista colaborador do celebrado Wes Anderson e se estabeleceu no cinema de vez com o elogiado A Lula e a Baleia (2005). Ela surgiu como atriz nos filmes dele, mas começou a se destacar com roteiros que Noah dirigia em filmes como Frances Ha (2012) e Mistress America (2015), filmes que, apesar de dirigidos por Baumbach, pareciam ter muito mais da Gerwig em suas temáticas e ritmo do que do próprio diretor. Em 2017, ela iniciou sua carreira como diretora com o superlativamente aclamado Lady Bird. A partir daí a significação social dos dois sofreu uma guinada interessante.

Enquanto os últimos filmes de Baumbach nos quais a atriz não estava envolvida não obtiveram a mesma repercussão de seus filmes anteriores, ou dos filmes que ela roteirizava, o filme da Greta Gerwig teve um profundo impacto na audiência. De atriz fetiche e namorada do diretor, ela passou ao posto de celebridade central da relação, enquanto que ele começou a ser encarado como aquele fenômeno indie do início da década de 2000 que mantem o interesse coletivo mais por ser visto ao lado dela que por seu trabalho em si. Nem mesmo a tentativa de emplacar seu filme Os Meyerowitz: Família não se escolhe (2017) com exibição em Cannes e uma larga campanha de divulgação pela Netflix, que produziu o filme, conseguiu gerar um grande apelo com o público.

Esse posicionamento de marketing tão vinculado a um fetiche social pela vida privada dos artistas normalmente reproduziu uma série de convenções que envolvem gênero e expectativas romantizadas sobre relacionamentos: o roteiro comum é que o homem seja uma figura de maior respeitabilidade que a mulher, e ainda que a mulher tenha uma carreira mais comercialmente relevante, a figura masculina acaba sendo largamente creditada inclusive pelos méritos do trabalho dela (como ocorre na parceria Beyoncé e Jay-Z). Talvez por serem um casal de roteiristas e diretores e estarem mais distantes de uma mídia tão imagética, com a dupla Gerwig e Baumbach, o fenômeno tem ocorrido de maneira substancialmente diferente: a comparação tem servido apenas para diminuir a posição do diretor no subconsciente coletivo.

Inteligentes, talentosos e apresentando carreiras consistentes e boa interação em parcerias, Noah Baumbach e Greta Gerwig são um casal de relevo no cinema alternativo americano. Como celebridades acabam sendo alvo do jogo de imagens construído pela mídia e audiência. A percepção coletiva do casal acabou se desenvolvendo de uma maneira curiosamente distinta do que normalmente ocorre com casais de celebridades, o que não interfere na ascensão meteórica da diretora, mas tem parecido prejudicial à carreira de seu marido. Fica disso o desafio a ambos para que sua parceria e talentos individuais sigam frutíferos e bem resolvidos, independente da pressão de imagem que o establishment constrói.

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