Autores de cinema, serviços de streaming e universos compartilhados

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Dois fenômenos recentes têm influenciado demasiado o modo de consumo de audiovisual: primeiro, o crescimento meteórico do download pela internet, e principalmente dos serviços de streaming; em segundo, a tomada das bilheterias e dos cinemas multiplex pelas gigantescas e financeiramente prolíficas franquias e universos compartilhados. De que forma esses dois acontecimentos se relacionam? Não é bem certo, mas pode-se desenvolver teorias sobre. Os serviços de streaming tiveram seu crescimento em um momento no qual as produções para a TV se tornavam mais elaboradas e as antigas locadoras estavam abarrotadas de dvd’s que alugavam não filmes, mas séries, e foi dentro desse filão que esses serviços, mormente a Netflix se estabeleceu. Da mesma forma, o crescimento das franquias demonstra uma tendência à serialização do cinema, incorporando características típicas de séries ou novelas, como os ganchos e os “episódios-ponte”. Pode-se dizer que se trata de uma miscigenação de formatos, na qual os filmes se tornaram mais episódios serializados, enquanto que as séries se tornaram mais cinematográficas. Até mesmo as metragens dos episódios de séries parecem apresentar uma diversidade de formatos que, muitas vezes, se aproxima da metragem de cinema, vide os episódios de 90 minutos da série Sherlock (2010-2016).

Porém, outra questão surge dessa característica: se o cinema serializou-se e as séries são produtos basicamente mercantis, onde fica a posição do cinema autorialista nessa história? Chegamos então a um terceiro ponto curioso, a apropriação de grandes nomes do cinema autoral pelos serviços de streaming para angariar maior respeitabilidade para essas plataformas. Temos filme de Woody Allen sendo produzido e lançado diretamente pela Amazon; filme dos Irmãos Coen sendo produzido e lançado diretamente pela Netflix; além do envolvimento de grandes nomes do cinema autoral na produção de séries, como Martin Scorsese  em Boardwalk Empire e Vinyl; Neil Jordan em Os Bórgias; e até mesmo experimentos de formato híbrido como a série Mosaic desenvolvida por Steve Sodebergh para a HBO, após ter realizado a série The Knick para a mesma rede.

Nesse parágrafo anterior, foram citados apenas agraciados com o Oscar de Melhor Diretor, temos ainda diversos outros exemplos. Isso é sintomático de algo curioso, se na década de 1990 ver um grande diretor trabalhando para canais de TV era um sinal de decadência (com raras exceções, como o seminal trabalho de David Lynch na série Twin Peaks), em 2018 ver diretores produzindo para os canais de streaming não é sinal nenhum de desinteresse, e sim a ocupação de um espaço prolífico que pode dar até mais liberdade criativa para os mesmos diante das novas características do mercado.

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