Análise | Roma

Análise | Roma

17 de December de 2018 1 By Conde
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A grande maioria dos autores de renome em qualquer área da produção artística (música, literatura, pintura, cinema) possui algumas características comuns: a adoção de um gênero de narrativa(drama, ou comédia, ou terror, no caso do cinema); e a repetição de alguns traquejos técnicos que os identifiquem (posições de câmera ou textura de fotografia, no cinema). Essas características,que são comumente reconhecidas como a “assinatura” do autor não apenas o identificam como artista, mas inclusive podem ser tornar um elemento de fetichização para os admiradores mais fervorosos de sua obra. No cinema temos diretores em profusão que se destacaram dentro desse modelo, e em todas as eras, nomes como Federico FelliniQuentin Tarantino,Michelangelo Antonioni, Woody Allen, Frank Capra entre outros. Essa lista seria verdadeiramente muito extensa se fossemos citar todos os nomes destacáveis. Um tanto mais raro é um outro tipo de artista:aquele que procura se reinventar quase que completamente a cada obra,e que deseja fazer de cada trabalho seu um construto peculiar em relação a seus outros trabalhos. Nessa categoria,talvez o maior nome na história do cinema seja o de Stanley Kubrick,que dirigiu em sequência filmes tão díspares quanto Doutor Fantástico (1964),2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968),Laranja Mecânica(1971),Barry Lyndon (1975) e O Iluminado (1980).O próprio diretor repetia a exaustão o mantra de que ele “não tinha intenção de fazer duas vezes o mesmo filme”, sendo uma preocupação constante do diretor que cada obra sua fosse um marco em si, como uma espécie de David Bowie cinematográfico. Nas gerações hoje em atividade, sem dúvidas o diretor que segue de maneira mais consistente essa proposta é o mexicano AlfonsoCuarón.

Cuarón possui uma carreira muito plural, mas invejável em sua qualidade, que inclui filmes marcantes por diferentes motivos como: A Princesinha (1995), Grandes Esperanças (1998), E Sua Mãe Também (2001), Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban (2004), Filhos da Esperança (2006), Gravidade (2013) e agora Roma em 2018. Outra peculiaridade na forma como ele se envolve em suas produções é o compromisso técnico individual de Cuarón com seus filmes, que ele escreve, dirige, produz, fotografa e edita,sendo a confecção da obra um tour de force para seu criador de uma maneira que pouco se vê na produção cinematográfica. Porém, se há algo que torna sua carreira coesa é,sem sombra de dúvidas, a intenção clara do diretor em construir uma linguagem cinematográfica própria para cada obra. Não existem opções técnicas pré-fabricadas em seus filmes: cada plano e cada posicionamento e movimento de câmera é pensado de forma a dar um sabor peculiar aquela obra, a caracterizar aquela produção como experiência para o espectador. Alfonso Cuarón é, no final das contas, um grande esteta do cinema.

Em Roma vemos um filme com uma gloriosa fotografia em preto e branco, uso de câmera em alta definição com pouca pigmentação e uma caracterização de personagens e de ambientes bastante realista. Ouso da câmera em travellings lentos procura transmitir ao espectador uma forte sensação de compreensão do espaço: enquanto as cenas filmadas em espaços muito abertos são vistas em panorâmicas, as cenas filmadas em ruas tendem a seguir num travelling laterale nas sequências em espaços fechados há um movimento de rotação da câmera em um eixo central do cômodo o que confere tridimensionalidade a esses espaços. Essas opções se repetem deforma tão consistente ao longo do filme que parecem fetichistas, mas não são: com essas movimentações específicas o diretor consegue conferir uma compreensão do espaço pelo público bastante palpável,o que é perceptível pela velocidade com que o espectador se sente familiarizado com a casa dos protagonistas e sua arquitetura. Roma é,afinal, um filme basicamente sobre pessoas em um espaço, e é como metáfora da vida cotidiana nesse espaço (o México ou a América Latina) que o filme se estabelece.

A trama acompanha uma jovem de descendência indígena que vive como criada em uma casa de uma família rica durante o ano de 1970, auge da atuação de um governo militarista. Apresentando a vida da protagonista e das pessoas que a rodeiam, o filme constrói um retrato poético das mazelas sociais de seu país. O roteiro procura não discutir os temas que o filme levanta de modo muito direto, sendo um filme, em geral, de poucas falas e com diálogos mais simbólicos que expositivos, como se percebe já no início quando, ao servir a sobremesa para os meninos,a mãe diz para a criada não servir a filha “porque engorda”.Quanto aos principais pontos de discussão da obra,eles são realmente estabelecidos pela imagem e não pelo texto: a cisão social e étnica entre as classes exploradoras da terra e os trabalhadores; a atuação dos militares na sociedade; a situação de abandono das mulheres em todas as classes sociais; a fetichização das armas. Uma analogia bastante reforçada na história se passa com a dificuldade da esposa em colocar o carro deixado pelo marido na garagem, um carro claramente exagerado e avantajado para aquele espaço (sequências essas que demonstram um cuidado primoroso de edição). Essa metáfora do esforço individual da mulher para compatibilizar um casamento suprindo as expectativas individuais do homem é um exemplo claro de como Roma trabalha dizendo seu real texto de maneira indireta e inventiva. Mesmo o drama pungente da protagonista é demonstrado sem choro ou lamentação,como algo entalado que se esparrama pelas sequências do filme. Em uma das cenas mais fortemente simbólicas, um incêndio(provavelmente proposital e por vingança dos camponeses) se passa em uma fazenda tomada pelos ruralistas por meio de grilagem, enquanto o filho caçula da família passeia fantasiado de astronauta, alheio a realidade do local onde está, e um homem fantasiado de bicho papão surge das sombras, para então retirar a máscara e se revelar como um dos ruralistas que entoa um cântico nacionalista.Essa sequência complexa, mas pouco textual, possui tantos comentários em suas entrelinhas sobre a construção social do país que chega a ser uma obra em si.

Porém,essa movimentação de câmera, construção de quadros repletos de simbolismos e essa multiplicidade de temáticas políticas e sociais não funcionariam não fosse a mise en scene impecável construída pelo diretor. Cada objeto e pessoa parece estar ou se movimentar no ponto exato do quadro, demonstrando o preciosismo na marcação dos cenários. Esse cuidado extremado é demonstrado já na primeira cena do filme, uma imagem aparentemente simples, mas muito bem executada, na qual um ladrilho de mosaico sujo de cocô de cachorro (outra analogia reiterada no filme) é lavado e no espelho formado pela água e sabão se reflete o céu e um avião(avião esse que passa novamente nos céus toda vez que sua protagonista se sente presa ou constrangida em sua vida, simbolizando a fuga que ela não tem direito a ter).

Profundamente artístico, tecnicamente impecável, inventivo em todos os seus elementos e demonstrando uma visão crítica e sensível de seu país que aborda diversos elementos, Roma é o preciosista Alfonso Cuarón operando em seu melhor para lançar uma obra marcante. Diferente de qualquer filme seu anterior, ele une a incomunicabilidade típica de um filme de Antonioni com os tempos lentos e os comentários sociais e visuais do filipino Lav Diaz,mas fazendo o filme de uma maneira ainda bastante individual. Um dos melhores filmes do ano e uma proposta bastante inovadora na carreira de seu diretor sempre bastante explorador, como também inovadora no cinema como um todo.