Análise | A Esposa

Análise | A Esposa

14 de January de 2019 0 By Vandeson N.
5 (100%) 1 vote

“Ela sempre ficou por trás do meu pai. Aos 80 anos, minha mãe virou para mim e disse que achava que não tinha feito nada em sua vida e isso não deveria ser assim”.

A incômoda e tocante passagem acima é parte do discurso emocionante proferido pela veterana e talentosa Glenn Close na última cerimônia do Globo de Ouro, quando foi merecidamente premiada como Melhor Atriz em Filme de Drama pelo longa A Esposa.

Para aquelas pessoas que conhecem a trama do filme, o discurso de Close, talvez o mais comovente da noite, se encaixa perfeitamente. Mesmo numa era onde a representatividade feminina vem ganhando um grande e justo reconhecimento na sociedade (e cinema), não é raro vermos passagens onde as mulheres precisam se submeter a algumas “regras” patriarcais. É de conhecimento de muitos que as mulheres têm tanto direitos e capacidades quantos os homens, mas se vêem privadas pela comodidade machista da sociedade. E é exatamente essa ferida difícil de cicatrizar que A Esposa insiste em cutucar.

Infelizmente, muitos detalhes sobre a trama podem tirar o prazer e impacto da experiência ao assistir o filme. Isso se deve ao fato do roteiro de Meg Wolitzer e Jane Anderson dedicar boa parte de seu tempo para desenvolver o relacionamento do casal Joan e Joe Castleman, interpretados por Close e Jonathan Price (de Game of Thrones e da franquia Piratas do Caribe), deixando o plot principal para ser revelado durante a metade do segundo ato.

Dono de uma prestigiada carreira como escritor, Joe realiza o seu maior sonho ao ser agraciado com o prêmio Nobel de Literatura e viaja para Estolcomo na companhia de sua esposa e de seu filho, David (Max Irons, de A Hospedeira), um aspirante a escritor que busca reconhecimento paternal. Enquanto olha seu marido ter todos os holofotes voltados para si, Joan, uma escritora que largou sua carreira pela família, reflete sobre um crucial segredo a respeito do sucesso e talento de Joe, enquanto reflete sobre seu casamento, marcado por traições e mentiras. É durante uma conversa num bar com Nathanel Bone (Christian Slater, aos poucos voltando ao seu status de outrora), homem que deseja escrever a biografia de Joe, que lembranças e revelações vem à tona.

Algumas pessoas poder se chatear com o desenvolvimento lento da história, mas é nós seus personagens que A Esposa se sobressai. Basta notar as expressões de Joan e Joe em certos momentos que, após descoberto o segredo do casal, vale o esforço e paciência.

Com seis indicações ao Oscar e dona de um respeitável currículo (nunca vi uma campanha nas redes sociais para que ela ou Amy Adams, outra habitual indicada, ganhasse o prêmio, como foi feito com Leonardo DiCaprio), Glenn Close é a alma do filme. Sempre contida e elegante, sua Joan vai crescendo ao longo da projeção, se tornando uma bomba de indignação prestes a explodir. Injustamente ignorado em premiações, Jonathan Price divide as cenas com Close com uma cínica e boa performance, garantindo repúdio e apego do público com eficiência.

Assim como Grandes Olhos, de Tim Burton, A Esposa é uma precisa retratação sobre a posição em que muitas mulheres são colocadas em prol do reconhecimento financeiro de um sistema machista. De quebra, ainda temos mais uma soberba atuação de Glenn Close, que, tardiamente, será premiada como uma ótima atriz e mulher que é.

NOTA: