Análise | Drug King

Análise | Drug King

24 de February de 2019 3 By Eurico S.
4 (80%) 1 vote[s]

Hoje em dia, a Coreia do Sul se orgulha em se apresentar ao mundo como um país livre de drogas, com alguns casos pontuais – e que alardeiam o país – sendo registrados no dia a dia. Uma busca na internet somente traz esse lado mais brilhante do país asiático, fazendo a gente pensar que ele nunca enfrentou o que nós, latino-americanos conhecemos tão bem. Isso muda com a chegada do filme Drug King, que conta a história de um período difícil da Coreia do Sul: a ascensão do comércio de cocaína nas décadas e 1970 e 1980.

O filme da Netflix segue uma receita parecida com a da franquia Narcos, porém sem a presença do narrador que explicar alguns buracos que o roteiro poderia apresentar, para nos trazer a história de Lee Doo-sam (o ator Song Kang-ho em uma performance excelente), personagem real da história sul-coreana que passou de um simples ourives a rei da droga de Busan e Japão.

Lee Doo-sam (à direita) é uma espécie de Escobar sul-coreano.

A narrativa mostra como Doo-sam ascende por uma vontade incontrolável de ter riqueza e poder, de “não deixar mais ninguém pisar nele”. Ele descobre no mercado negro da cocaína um mecanismo rentável de ganhar dinheiro, e inicia a construção de uma espécie de império, com uma estratégia que conhecemos bem: propina, corrupção de funcionários públicos do baixo ao alto escalão, um mar de caos e acordos, ainda com a atuação na vida pública do país por meio da filantropia disfarçada. O império de Doo-sam só pode parar frente a um inimigo tão imparável quanto ele, o promotor de justiça Kim In-goo (Também ótimo o ator Cho Jung-Seok).

Drug King traz a narrativa tradicional, como dissemos, mas essa narrativa parece apressada em algumas partes. O próprio desenvolvimento do personagem principal, Doo-sam, não passa por transições perceptíveis no decorrer do filme. A “queda moral”, nas palavras de Guilhermo Del Toro, não é tão sutil. A relação com seu primo Lee Doo-hwan (Kim Dae-myung) também pode parecer um tanto solta com uma retomada em que não se sabe bem a chegada da relação dos personagens até aquele momento. O modo de contar a história coreano, seu discurso, é diferente para nós ocidentais, o que pode gerar certa confusão com as quebras e mudanças mais bruscas que o filme apresenta.

A atriz Bae Doona realmente rouba a cena.

Entretanto, o filme conta com uma excelente fotografia, atuações brilhantes mesmo que de atores pouco populares entre nós (Bae Doona como a facilitadora Kim Jeong-ha rouba a cena), uma trilha sonora impecável, indo do clima setentista até a pianista Ingrid Haebler. O filme ainda tem espaço para explorar, mesmo que superficialmente, as tensões entre Coreia do Sul e do Norte, e até com o Japão, mostrando com sutileza de momentos sensíveis da história do tigre asiático, como o governo de Park Chung-hee, a industrialização, e seu assassinato em 1979, em meio a protestos contra seu governo.

Drug King é um bom entretenimento, e mostra que a Netflix está ficando muito boa em adaptar fatos reais sobre os reis da droga ao redor do mundo.

Nota: