Análise | Pluto

Análise | Pluto

2 de April de 2019 0 By Eurico S.
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Releituras de obras clássicas podem, por vezes, serem somente um tributo feito por algum autor/fã a algum trabalho eternizado, não apresentando realmente algo novo e que desperte nossa atenção para novos conceitos. Vemos isso tanto no cinema, com adaptações e remakes não fazem exatamente jus ao teor da obra original, quanto nos quadrinhos (com crossovers de histórias diferentes que não acrescentam em nada às originais e seguem apenas uma lógica comercial), e até mesmo no meio literário (Os despossuídos, da autora Ursula le Guin, por exemplo). Entretanto, existem também releituras que não prestam essa homenagem, mas enriquecem a história original de uma forma tão única, que podem ser consideradas como toda uma coisa toda nova, mesmo se passando em um universo criado por outra pessoa. A essa segunda espécie pertence Pluto, de Naoki Urasawa, que vai além de uma história clássica para trazer uma reflexão profunda sobre a vida.

Pluto se passa dentro do universo de Astro Boy, clássico do mestre Osamu Tezuka, aproveitando um arco de histórias intitulado O maior robô da Terra, dentro do mangá do Atom, o Astro Boy. A história segue a mesma premissa desse arco original, os sete robôs mais fortes da Terra são atacados um a um por um novo inimigo a serviço de um ditador ressentido contra eles e a humanidade. Entretanto, as similaridades param por aí, já que a versão de Urasawa cria uma trama de suspense mais intimista, abordando muito da relação entre homem e máquina, fazendo-nos refletir sobre a natureza da alma e de nossos sentimentos, e se eles podem ser reproduzidos por uma inteligência artificial.

O Astro Boy de Urasawa: o deslocamento do protagonismo

O estilo de Urasawa escrever é sempre aristotélico, ou seja, ele parte das partes para construir o todo, técnica essa que tornou famosas obras sua como Monster e 20th Century Boys. Em Pluto, seguimos a investigação do detetive Gesight (na versão original, era Gehardt), descobrindo pouco a pouco a verdade sobre a série de assassinatos dos robôs mais fortes do planeta, incluídos o próprio Gesight e o Astro Boy, Atom. O autor de Pluto tira o foco inicial do protagonista de Osamu Tezuka e foca nos dilemas individuais de cada robô, indo a fundo na questão sobre a natureza do homem e do robô: eles são nossas criações, mas são exatamente como nós? E sendo, serão também falhos e inconstantes como nós? E sendo, o que isso representaria para a vida em si?

Esses questionamentos, além da natureza do ódio, da polarização das emoções e do caos que é ser humano permeiam toda a obra, e é aqui que Pluto se torna algo inteiramente único em relação ao mangá de Tezuka. Além dos conflitos dos robôs, temos histórias secundárias que, como em toda obra de Urasawa, não estão ali ao acaso. A 39ª guerra central, fato recorrente na história, serve de ponto unificador dos robôs da trama, mas além disso, é o fato que traz a esses mesmos robôs outra reflexão sobre sua própria existência. Nenhuma pessoa consegue ser a mesma após ver seus semelhantes morrerem, nascendo daí todo tipo de sentimento contraditório, como depressão, raiva, ódio… ainda tendo o outro lado, o rancor do lado derrotado… Além disso, os grupos que podem achar isso inteiramente errado – robôs como humanos, tendo seus princípios morais para boicotar essa ascensão dos robôs na sociedade (se um robô é a réplica dos humanos, então merecem direitos como os seres humanos?); todos esses sentimentos em um mundo de inteligência artificial fornece o caldo para a mensagem da história contida em Pluto, que é, em seus 8 volumes publicados pela Panini, uma masterpiece dos mangás.

Onde nasce o ódio? É ele um sentimento que mesmo um robô pode despertar?

Pluto é uma obra completa, desde a história ao desenho, com um traço característico de Naoki, que traz uma mensagem realmente forte sobre nossos sentimentos e nossa própria atitude de reconhecimento do outro e suas diferenças e particularidades. É uma história densa e meticulosa, que merece ser considerada como algo próprio, mesmo que tenha nascido e seja uma variação de um arco pré-existente. Esperamos agora que, em sua exposição na cidade de São Paulo, que começa em outubro, o mangaka possa nos dar a honra de sua presença para conhecermos mais a fundo desse universo que não tem nada de artificial, que são suas histórias.