Análise | Shazam!

Análise | Shazam!

5 de April de 2019 0 By Vandeson N.
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Pior do que seguir os passos da “concorrência” é entregar materiais que desagradem a muitos. Foi exatamente isso que a Warner e a DC Comics fizeram ao jogar o seu universo cinematográfico num mundo sombrio e adulto espelhado nos filmes de Nolan e por lançarem projetos ambiciosos muito cedo, sem que seus personagens e mitologias fossem sequer bem desenvolvidas e apresentadas aos espectadores. Com o grande baque sofrido em Liga da justiça (confira a análise aqui) nas bilheterias e críticas, os responsáveis precisaram engolir o orgulho e ceder a um tom de fácil identificação, ou seja, apresentar um tom mais leve, colorido e humorado, pendendo para as produções do Marvel Studios. Mas sem deixar suas origens de lado. Se o sucesso de Aquaman não comprovou essa bem vinda mudança, o excepcional Shazam! com certeza fará com que aceitemos de vez que as coisas estão entrando no eixo.

Conhecido por muito tempo como Capitão Marvel (o motivo na mudança do nome do herói é mais do que evidente), o personagem parecia a escolha mais óbvia para começar essa nova fase no UCDC, pela sua simplicidade, tom bem humorado e, acima de tudo, sua humanidade. Aqui temos não apenas o filme mais engraçado do estúdio, como também aquele que mais nos deixará acolhidamente emocionados. Como resultado, o longa dirigido por David F. Sandberg (oriundo do cinemas de horror, tendo comandado Quando as Luzes se Apagam e Annabelle: A Criação do Mal) é, disparado, o melhor filme da DC após a trilogia do Cavaleiro das Trevas. Desculpe, Mulher-Maravilha.

A história tem como protagonista Billy Batson (Asher Angel), um esperto jovem de 14 anos que há muito procura por sua mãe, de quem se perdeu quando criança. Passando (e fugindo) por muitos lares acolhedores, Billy acaba sendo mandado para uma nova família, que mais uma vez não reconhece como sua. Sua vida entra num turbilhão quando é convocado por um antigo mago conhecido como Shazam (o indicado ao Oscar Djimon Honsou, que curiosamente está presente em Capitã Marvel e também fez uma discreta participação em Aquaman), que lhe cede seus poderes mágicos, além da importante missão deter o poderoso e maléfico Dr. Silvana (Mark Strong, ganhando mais uma chance da DC após o fiasco de Lanterna Verde), que há décadas cobiça os poderes mágicos do ancião. Bastando apenas falar o nome do mago, Billy adquire a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio, se tornando o mortal mais poderoso da Terra (papel de Zachary Levi, da série Chuck), a ponto de peitar até o Superman. Só que como qualquer adolescente num corpo adulto e poderoso, Billy usará sua magia das mais divertidas formas, até entender que seus dons precisam ser usados para salvação da humanidade e não como um privilégio.

Se tratando de um filme da DC, pode parecer estranho afirmar que Shazam! é uma produção que facilmente marcaria uma geração numa Sessão da Tarde, mas é exatamente o que acontece. O longa se assume descaradamente como uma comédia familiar capaz de arrancar risos em diversas situações, tanto pelas mancadas e treino do recém surgido herói (que podem agradar os fãs da saudosa série Super-Herói Americano, exibida pelo SBT nos anos 80) como pelo imenso talento de todo o elenco. O destaque fica por conta do ator Jack Dylan Grazer, aquele moleque hipocondríaco e engraçado de IT: A Coisa, que interpreta Freddy, o novo irmão adotivo de Billy e seu auto-intitulado agente, servindo como sidekick e em alguns momentos, consciência. Donos das melhores tiradas e funcionando como um guia de referência do universo DC, o jovem extrai boas risadas em quase todas suas cenas, fazendo com que desejemos um amigo como ele para conversar. O desempenho de Grazer só melhora quando Levi entra em cena, criando uma química perfeita com o carismático ator (que participou de Thor: Mundo Sombrio) numa referência ao clássico Quero ser Grande (há outra cena que reverencia o longa estrelado por Tom Hanks que se você não captar, não tem o mínimo direito de se chamar de amante da sétima arte). Dono de um perfeito timming cômico, Levi compensa a inexpressividade de Asher Angel, que não entrega o Billy Batson jovial esperado pelos fãs. O núcleo familiar em volta de Batson é composto por um elenco cativante que incorpora emoção ao drama vivido pelo protagonista e sua busca por acolhimento. E vale ressaltar a propositalmente caricata e divertida atuação de Strong como o vilão Silvana, bem encaixada na proposta leve do filme.

Os roteiristas Henry Gayden e Darren Lemke optaram sabiamente por adaptar a fase Novos 52 do personagem criado por C. C. Beck e Bill Parker em 1940, que revitalizou a mitologia do herói para uma nova leva de leitores e que tem no filme de Sandberg uma fidelidade respeitável, no visual e no tom. O texto ainda encontra brechas para incluir diversos elementos de outras fases e histórias, entre elas, Shazam e a Sociedade dos Monstros. De orçamento moderno, o filme até proporciona divertidas cenas de ação com tímidos efeitos digitais que casam bem com as incontáveis gags, deixando a obra algo delicioso de consumir.

Se você se flagrar saindo da sessão de Shazam! com uma satisfatória sensação de voltou à adolescência e àquele pensamento do que faria com superpoderes, o filme cumpriu sua missão. Ensinou a Warner que um bom desenvolvimento de personagens é o ingrediente essencial para que uma obra conquiste uma legião de fãs decepcionados. Se Mulher-Maravilha despertou em várias garotas o poder do empoderamento e a paixão pelos quadrinhos, o herói vermelhão pode fazer com que muitos (as) gritem a palavra mágica na esperança ganhar poderes para trazer alegria ao mundo. Poderes que todos, assim como filme, possuem.

P.S.: Não saia até o fim dos créditos, pois há duas cenas. Sei que pode até parecer uma eternidade, mas aproveite esses minutos para contemplar a felicidade por ver um dos mais divertidos filmes do ano. Boa sessão.

NOTA: