Análise | Special

Análise | Special

13 de April de 2019 0 By Conde
Rate this post

Special é, com o perdão do trocadilho, uma série verdadeiramente especial. Escrita, produzida e protagonizada por Ryan O’Connell, um jovem com paralisia cerebral assumidamente gay, a obra serve como canal para o autor exprimir os desafios e circunstâncias de sua inserção social na sociedade e de sua vivência sexual. Surgindo como fruto claro de um momento no qual empoderamento de minorias se tornou rentável na indústria do entretenimento, Special dribla os problemas comuns de produções que caçam sucesso por meio de discursos de validação de segmentos socialmente marginalizados por ser um trabalho mais honesto, bem resolvido, com representatividade direta na produção dos grupos-objeto da série do que se vê na maioria dos casos, sendo mais propriamente empoderador do que a maioria de seus trabalhos congêneres.

Na trama, não apenas o protagonista aparece em situações cotidianas representadas em diálogos bastante sinceros e bem construídos, ainda há uma exposição sexual do ator-autor de uma bravura poucas vezes vista, ajudando o público a naturalizar a sexualidade de pessoas com a mesma condição, servindo a seus fins não apenas em nível narrativo, mas também em termos visuais e simbólicos por apresentar de uma maneira sexualizável e carismática a figura do protagonista. Mas não somente na personagem-central a série se destaca, acertando em cheio na construção de seus coadjuvantes, havendo um capítulo especialmente focado na figura de sua mãe, o que demonstra que, além de confessional, o texto de O’Connell é também eficiente na construção narrativa e na estrutura dos episódios.

Em termos de estrutura o que se vê são capítulos bastante curtos (o total da temporada possui a duração de um filme), mas sempre muito eficientes em desenvolver seus personagens e arcos, trazendo cada episódio uma trama em si e uma temática própria sempre bem desenvolvidas. Não se trata aqui de uma obra com mérito apenas social, mas também se constitui um belo trabalho de contar histórias. Com montagem eficiente, e uma direção (de Anna Dokoza) eficiente, que mantém a estética leve, mas expressiva, como pode ser percebido no episódio da piscina, e que tem como principal destaque a delicadeza na direção de atores, além da palheta de cores alegres, que suaviza o peso da trama sem fugir à densidade necessária dos momentos mais dramáticos.

Eficiente socialmente, tecnicamente e narrativamente, Special é um dos grandes destaques entre as séries recentemente lançadas. Um trabalho empoderador em todos os níveis, leve e divertido, mas bem trabalhado e corajoso, é uma série intensa e representativa, e que merece muito ser vista.