Análise | Guava Island

Análise | Guava Island

15 de April de 2019 0 By Eurico S.
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Donald Glover é, inegavelmente, um dos artistas mais multifacetados dos últimos tempos. Ele não só atua, mas produz, escreve e, como seu alter ego Childish Gambino, está criando um estilo de música próprio que só evolui sem interrupção. Ainda mais, Glover tem uma mente aguçada para os problemas étnicos e sociais que afetam seu país e o restante do mundo, podendo-se dizer completo ao abordá-los de forma cômica (e desconfortável) em Atlanta, ou mesmo em seus vídeo clipes. E mesmo com uma pegada mais leve, como seu mais novo projeto Guava Island, que estreou no serviço Amazon Prime, Glover não perde o tom da qualidade de sua obra, ou a intensidade de suas provocações.

A história de Guava Island começa com uma lenda sobre a magia da ilha Guava, abençoada pelos deuses, que colocam nela os melhores produtores de seda do mundo: os clayworms. Entretanto, a ilha é corrompida pelo Homem, nesse caso a pessoa de Red Cargo (Nonzo Anozie), que afasta a beleza do amor com a guerra e a ganância, dominando a vida das pessoas da ilha com dinheiro, poder e armas. Nesse paraíso esquecido, vivem Deni (Glover) e Kofi (Rihanna), que tentam levar adiante seus sonhos, a única coisa que ainda leva esperança ao coração das pessoas. Deni, que é músico e trabalha nos estúdios de Cargo tocando para os funcionários da fábrica do mesmo (na qual trabalha Kofi), prepara-se para realizar um festival de música para unir as pessoas em um dia de festa e liberdade de suas “obrigações” de trabalho. Deni planeja tocar uma canção para unir todos os corações e almas dessas pessoas, para que sejam “tão livres quanto podem ser” nesse dia. Acontece que esse festival fará com que as pessoas faltem ao trabalho no dia seguinte, algo que Red Cargo não pode permitir, levando a um confronto de ideais opostos.

Donald Glover

Esse pano de fundo, aliado a uma trilha sonora e performances que podem confundir com um vídeo clipe de Gambino, mas que realmente servem ao propósito de contar a mensagem do filme, traz várias reflexões interessantes sobre o modo de vida que levamos, como “perseguidores de cenouras” que somos, submissos a um ideal emulado de pessoas vis. E que por vezes, somos tão alienados pelo sonho do país de fora, que não percebemos que ele esconde uma realidade tão opressora quanto a nossa. Mesmo no tom leve da palheta de cores de Guava Island (o filme foi filmado em Cuba em segredo), a montagem teatral do filme faz lembrar que estamos distantes de onde deveríamos estar, pois há muito somos dominados por pessoas que insistem em dizer que sabem “o que é melhor para todos”.

Guava Island conta com uma direção competente de Hiro Murai (que já faz parceria com Donald Glover na série Atlanta e dirigiu o aclamado clipe de This is America) e conta com roteiro do irmão de Donald Glover, Stephen, baseado em história escrita também por Donald. Destaque também para Letitia Wright, que mesmo com uma participação curta, rouba alguns bons momentos do filme.

Talvez o único ponto fraco do filme seja o aproveitamento que deram à cantora Rihanna, que apresentou uma atuação no mínimo mediana (perdoável, de fato, mas que mesmo assim faz perguntar se uma atriz de mais expressão não seria a escolha mais apropriada).

Cantora é subaproveitada no filme.

Donald Glover mostra um aguçamento ainda perspicaz, brincando (e isso também é uma mensagem) com o sistema do qual ele próprio faz parte. Ao final, temos uma mistura de sentimentos no tempo relativamente curto da projeção (menos de uma hora), mas a ideia é bem clara: todos os tiranos se sustentam por barbantes de seda.

Nota: