Análise | Hellboy

Análise | Hellboy

9 de May de 2019 0 By Vandeson N.
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Quando assisti o primeiro Hellboy nos cinemas em 2004, pouco sabia a respeito dos personagens e dos fabulosos quadrinhos escritos e desenhados por Mike Mignola, mas bastou poucos minutos de projeção para que o longa me cativasse. Contando com carismáticos atores, um excelente trabalho técnico que fez jus ao pequeno orçamento e um lindo mergulho num mundo de fantasia criado por Guillermo del Toro, o longa pode não ter se tronado um sucesso de bilheteria (só conseguiu um bom lucro graças à venda de DVD), mas agradou a todos, inclusive a minha pessoa, e se tornou cultuado. Quatro anos depois as coisas só melhoraram em Hellboy 2: O Exército Dourado, filme onde del Toro pode abusar de sua imaginação e de um orçamento maior, resultado de seu primoroso e premiado trabalho em O Labirinto do Fauno, entregando um bom filme de super-herói que não se abalou com a concorrência de Homem de Ferro e Batman: O Cavaleiro das Trevas. Com um retorno moderado nas bilheterias e bem elogiada por críticos, a franquia Hellboy tinha muito a proporcionar aos fãs em um terceiro filme, algo que foi negado pela Sony e pelos produtores durante 11 anos, naquela que pode ser considerada a maior burrada imposta a uma adaptação de quadrinhos desde que a Warner decidiu que Joel Schumacher cuidasse do Batman. Por mais que fãs e o elenco, principalmente Ron Pearlman e Selma Blair, clamassem por uma chance, não parecia haver chances do simpático chifrudo aparecer em uma conclusão da trilogia.

Eis que há mais ou menos uns dois anos um reboot formado por novos envolvidos foi anunciado, para o desgosto dos fãs e equipe dos longas anteriores. No rastro do sucesso de Logan e Deadpool, Hellboy (2019) foi anunciado como uma produção (cortesia da Lions Gate) voltada para maiores e que aproveitaria todo o clima sombrio dos quadrinhos, além de muito sangue. De fato, o novo filme do diretor Neil Marshall (cineasta oriundo do gênero terror, tendo realizado os cultuados Cães de Guerra e Abismo do Medo, além de alguns episódios de Game of Thrones) cumpre o que foi prometido: com cenas que beiram ao gore e outras que funcionam em instalar o terror, Hellboy consegue criar uma nova visão da mitologia do personagem, se afastando do trabalho mais limpo, bem humorado e fantasioso de del Toro. O que poderia parecer um acerto se revela como um meio de encobrir os problemas que del Toro contornou bem, uma vez que essa nova investida do personagem nas telonas se mostra decepcionante.

Diferente da maioria e incluso num pequeno grupo, criei um boa expectativa sobre o projeto, devido às promessas de mudanças no tom e pelo envolvimento de Marshall (considero Abismo do Medo um dos melhores filmes da década passada quando o assunto é terror) e do ator David Harbour, que a muito me agrada desde Stranger Things e até sua pequena performance no thriller Aliança do Crime, no papel principal. O criticado primeiro trailer não me desagradou nem de longe, deixando-me ansioso em conferir a produção adiada várias vezes. Quando as péssimas críticas sobre o resultado do longa foram divulgadas minhas expectativas caíram a ponto de eu esperar pelo menos um bom passatempo esquecível. Infelizmente, Hellboy é só esquecível.

O roteiro é, de cara, o maior problema, o que já prejudica num bom rendimento. Você pode me acusar de ir ao cinema esperando muito e sair frustrado, mas eu sempre analiso o que estou assistindo com foco e calma, dois itens difíceis de encontrar na obra. O texto até se sai bem em apresentar a gênese do herói infernal na Segunda Guerra Mundial, numa rápida cena que repete o que foi feito em 2004, mas o que vem a seguir são momentos de puro caos e cenas constrangedoras. O protagonista passa o filme inteiro berrando com tudo e com todos, correndo pra lá e pra cá por vários países e realizando diversas missões. Mas a sensação que fica é que não dá pra saber o porquê daquilo tudo acontecer. Diversos arcos clássico das HQs são adaptados de forma compacta, fazendo com que ninguém tema que os planos da feiticeira Nimue se concretizem. O tosco embate de Hellboy contra três gigantes, “auxiliada” por uma horrorosa trilha sonora (problema frequente durante a obra inteira), que nada acrescenta à trama; seu descartável envolvimento com uma agência britânica e a péssima interação dele com outros personagens são apenas alguns dos deslizes cometidos.

O CGI até convence em muitos momentos, criando criaturas e cenários convincentes e mesclados com efeitos práticos e um bom trabalho de maquiagem em pontuais momentos. Porém, diferente (mais uma vez) dos longas de del Toro, essas técnicas não encantam, servindo para tentar incrementar as fraquíssimas cenas de ação ou as forçadas cenas sangrentas, presentes ali apenas para forçar expressões de nojo no público, missão que o filme faz questão em falhar.


No elenco, apenas Harbour parece estar levando projeto com seriedade. Ainda que entregue um interpretação mais irônica e bruta do personagem, podendo incomodar bastante por passar muito tempo irritado ou soltando frases cômicas que não funcionam em sua totalidade, ele se sai bem. A sua interação com seu pai, o Professor Bloom (papel de um deslocado Ian Macshane) é pífia e aquém da boa química entre Ron Pearlman e o saudoso John Hurt, rendendo aqui momentos constrangedores, como a lição de como lixar os chifres, uma pobre alusão a quando um pai ensina o filho a se barbear. Não menos canastrão é o desempenho da “diva” Milla Jovovich, que embora esteja acostumada com produções B, em nenhum momento se esforça para não fazer caras e bocas, além de soltar frases de efeito recheadas de clichês.

Caso fosse desenvolvido como uma série de TV, Hellboy até que se sairia bem. Mas o que recebemos é um triste desperdício de dinheiro que seria melhor utilizado caso os produtores ouvissem os fãs da franquia e a equipe original, onde tínhamos um Guillermo del Toro, hoje oscarizado, que até hoje não esconde suas raízes e paixão pelo fantástico e que teria feito um bom filme com os US$40 milhões investidos no trabalho de Marshall. É uma boa chance perdida de apresentar um divertido e rico personagem a uma geração que cada vez mais aprende a valorizar longas de super-heróis, sejam eles sombrios ou não.

NOTA: