Análise | Chernobyl (Episódio 1)

Análise | Chernobyl (Episódio 1)

14 de May de 2019 0 By Conde
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Chernobyl é uma minissérie em 5 episódios da HBO que reconstrói a tragédia ocorrida na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. Em seu episódio de estreia a produção já esclareceu com precisão o seu tom. Na trama se vê algumas características típicas de filmes de tragédia (um casal separado em meio ao ocorrido, políticos tentando abafar o escândalo, ambientes hierárquicos em pânico ocasionando mortes) muito bem embaladas em um roteiro elegante e pouco apelativo, até mesmo quando faz uso de estruturas tradicionais do cinema de gênero. Além dessas características típicas, se vê também outras mais inesperadas, como uma informatividade sobre o cenário político e social onde a tragédia ocorreu com suas imensas particularidades (a decadente União Soviética da era Gorbachev).

Esteticamente a minissérie foge completamente ao esperado. Evitando o apelo de criar personagens arquetipicamente heroicos realizando feitos impressionantes em sequências de ação pirotécnicas em meio à tragédia (o que seria a opção óbvia para atrair um público massivo), o que se viu no capítulo foram personagens realistas em cenas cruas, onde o tom geral foi bastante opressivo, e se destacava a direção de arte e fotografias que reconstituíram o momento a ponto de efetivamente conseguir transportar o espectador para o ambiente. Como “cinema-experiência”, Chernobyl é de uma eficiência acachapante, buscando não ao entretenimento em uma ação inspirada em uma tragédia, como em filmes do modelo de Terremoto: A Falha de San Andreas (2015), ou O Inferno de Dante (1997), mas sim construir uma obra que transmitisse com grande verossimilhança a experiência tenebrosa da tragédia para aquela população.

A mesma intenção se percebe na trilha sonora, na edição e na escolha do elenco. A minissérie evita dar destaque a atores com rostos excessivamente televisivos, optando por um elenco que, embaixo da caracterização, pudesse realmente convencer como habitantes da Ucrânia daquele período. Essa escolha é comprovada pela escalação do protagonista, o excelente Jared Harris (da série Mad Men), um ator extremamente competente, como já demonstrado em diversos trabalhos anteriores, mas que não teria o perfil óbvio de um protagonista em produções menos corajosas que essa. Na edição se destaca o uso de áudios reais do momento da tragédia, que aumentam o impacto já ostensivo da minissérie. Nas sequências de ação, o primeiro capítulo não buscou criar apelo dinâmico, mas sim destacar a melancolia da tragédia, em cenas que, embora movimentadas, mantinham um tom triste mais que empolgante.

Ainda que tenha sido um episódio focado na tragédia, o capítulo ainda exibiu um ótimo roteiro em uma grande sequência de reunião de um comitê de gestão da crise, que comprovou que, além de uma ótima direção, a minissérie tem um roteiro com diálogos excelentes. A efetividade do roteiro também já podia ter sido percebida no prólogo ao capítulo, que se ancorou na direção de arte, no roteiro, na edição, na fotografia e na performance de Jared Harris, e que conseguiu estabelecer a atmosfera da produção já desde os primeiros minutos.

Com uma direção primorosa, elementos técnicos impecáveis e um ótimo elenco, o primeiro capítulo da minissérie Chernobyl passa a impressão de que será uma grande obra. Fugindo aos apelos mais populares do cinema de tragédia, ela tem se colocado mais como um intenso “cinema-experiência” do que como um entretenimento em cinema de gênero. Essa opção deverá tornar a série menos popular, mas definitivamente torna a obra mais meritória como representação dos eventos que reconstitui.