Análise | Cobra Kai (2ª Temporada)

Análise | Cobra Kai (2ª Temporada)

17 de May de 2019 0 By Danilo Galvao
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A segunda temporada de Cobra Kai mal estreou e já está arrancando críticas positivas por toda a internet. Ao terminar de assistir, realmente não acreditei que o que já era bom podia ficar ainda melhor. A trama é muito boa e vai além de passados mal resolvidos entre dois adultos que querem se firmar na sociedade por algo maior, neste caso o Karatê – sempre ele.

No final da primeira temporada acompanhamos a final do torneio que, no passado, deu ao Daniel Larusso o título de campeão nacional em cima do Johnny Lawrence. Só que agora, foi o aluno do Johnny que levou a melhor, e a academia Cobra Kai pôde, finalmente, respirar aliviada após tantas polêmicas. O grande detalhe é que, o garoto que levou o título, Miguel, ganhou através de técnicas maliciosas em cima do oponente, Robby, que estava com braço machucado. Ou seja, para um torneio, ganhar em cima de fraquezas não é mostrar as verdadeiras técnicas aprendidas ao longo do tempo, mesmo quando o primeiro mestre de Karatê, John Kreese, aparece para frisar essa máxima ao fim da temporada. A segunda fase começa exatamente neste ponto.

John Kreese foi o sensei que ensinou todas as técnicas para o Johnny Lawrence, e, principalmente, como jogar sujo numa luta. Daí o lema, “ataque primeiro, ataque forte, sem piedade”. Mas, o Johnny viu através desse torneio que um caminho perigoso estava sendo tomado, que a sociedade já não aturava mais esse tipo de comportamento, mesmo que seus alunos tenham ganhado autoconfiança através dessa filosofia. E ele é categórico ao passar isso para os discípulos, de que eles ganharam por que o adversário estava machucado e eles precisavam meditar e treinar mais. Só que, aos poucos, John Kreese vai se inserindo no contexto e ganhando espaço lá dentro. Mesmo com toda a desconfiança de Johnny Lawrence, você percebe que a moral do antigo sensei vai aumentando e os alunos passam a escutá-lo mais, já que Lawrence está preocupado com outros problemas pessoais.

Por outro lado, vemos um Daniel Larusso engajado em ensinar todas as técnicas ensinadas pelo senhor Miyagi, através da abertura de seu dojô, o Miyagi-Do. Como proposta inicial, ele faz propagandas de que ensina de graça para contribuir com o desenvolvimento pessoal de cada um, formando cidadãos que saibam se defender, apenas. Além do Robby, filho de Johnny Lawrence, ele ensina também à própria filha, fazendo uma dobradinha de discípulos. Aos poucos, rostos conhecidos vão trocando de lado, saindo do Cobra Kai, mais agressivo, para o Miyagi-Do, mais pacífico. E é aí que o jogo começa.

É impagável de ver o quanto Daniel e Johnny são traumatizados pela adolescência, e o quanto isso interfere nos próprios ensinamentos com os alunos. Os roteiristas escreveram uma história tão bem amarrada, que são perceptíveis as características do Yin e do Yang de cada dojô. O Cobra Kai usa preto e agressividade, inconsequência, característica Yang; já o Myiagi-Do usa branco e tolerância, pensa antes de agir, característica Yin. Só que é difícil guiar tantos alunos adolescentes com hormônios em combustão constante a serem diligentes, no final é tudo porrada. O bacana ao falar do roteiro, é que, tudo se relaciona aos filmes passados, e o seriado faz o flashback instantâneo nas cenas chaves, além de transportar os que viveram a época para aquela mesma atmosfera intercalada com trilha-sonora impecável, tanto pelo Hard Rock anos 80 quanto pelas flautas orientais que guiam cenas pacíficas e cheias de tensão, mostrando que o ocidente e o oriente andam juntos, só precisando de foco.

Ainda sobre o roteiro, você poderá conferir crises existenciais adolescentes entre os adultos, e crises adultas entre os adolescentes. Por que essa complexidade toda? Porque há uma crise existencial ali entre todos os personagens – nada superado. E quando isso vem à tona, não há Karatê que segure. É aí que entra o humor, pois têm cenas cômicas…realmente hilárias no desenrolar da história.

A coreografia das lutas ainda não está level hard, mas a magia dos filmes da trilogia mora exatamente aí. Não precisa ser um Jackie Chan lutando para sabermos que, tanto o seriado quanto os filmes, vão além disso. O conjunto todo fala por si só. E aí, o Johnny Lawrence percebe o quanto o lema “ataque primeiro, ataque com força, sem piedade” está ultrapassado. Com isso, ele apenas instigou os alunos a soltarem a agressividade em qualquer um, e ele sabe que um ser humano é muito melhor que isso, tendo em mente o que aconteceu com seus amigos durante esta temporada. Ele volta atrás e muitos alunos não aceitam isso e acabam batendo de frente com o próprio, já que John Kreese é o grande entusiasta desse tipo de atitude e vinha plantando a semente muito bem. Daniel Larusso, ainda com suas impulsividades adolescente, principalmente quando é atacado pela galera Cobra Kai em diversos âmbitos, se vê perdido, mesmo com tantas meditações e tentando fazer a coisa certa. Resultado? A bomba explode e todos pagam. E assim acaba a segunda temporada, com aquele gosto de quero mais e aquela velha pergunta: e agora?

Todos os episódios giram entre 20 e 30 minutos, tudo bem, a gente dá aquela petiscada, mas apenas 10 episódios acho que fica muito pouco. Nesse caso, é o meu lado entusiasta que está falando, porque a série é muito boa, vale a diversão, os conflitos internos, a trilha sonora, o enredo, e a atmosfera criada a partir de filmes que continuam vivíssimos através destas duas temporadas. Quem viveu a época vai se sentir em outra década, até porque, diga-se de passagem, os próprios personagens principais não fazem tantas menções às novas tecnologias. Isso é um ponto muito legal, pois parecem que pararam no tempo e em diversas cenas eles são trolados por smartphones, internet, sites pornôs, etc. E que venha a próxima temporada, mantendo o mesmo nível, ou indo até além, de roteiro, enredo, e personagens marcantes.

Nota: