Luna Lovegood | A Complexidade Que Reside Na Inocencia

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“A garota ao lado da janela ergueu os olhos. Tinha cabelos louros, sujos e mal cortados, até a cintura, sobrancelhas muito claras e olhos saltados, que lhe davam um ar de permanente surpresa. Harry entendeu na hora porque Neville preferira procurar outra cabine. A garota emanava uma aura de nítida birutice. Talvez fosse porque guardara a varinha atrás da orelha esquerda, por medida de segurança, ou porque tivesse decidido usar um colar de rolhas de cerveja amanteigada, ou ainda porque estivesse lendo a revista de cabeça para baixo”

A primeira aparição da personagem Luna Lovegood se deu em Harry Potter e a Ordem da Fênix, obra que abraça por completo a obscuridade que já permeava os livros anteriores, numa clara transição que abandonou o tom outrora infantil. O quinto livro da saga é responsável não só por dar continuidade à faceta angustiada e densa de um Harry envolto pelo luto da perda de um amigo e abatido pelo retorno de Voldemort: a aura pesada e intensa é exacerbada pela solidão, ressentimento e aflição que o entornam, sem respostas, na casa dos Dursley.

É nesse clima pesado, de guerra iminente, que Luna Lovegood nos é introduzida. A construção da personagem é composta por elementos antagônicos, a priori enevoados pela suposta loucura e ingenuidade que, ao invés de reduzi-la à simplicidade, lhe impulsiona para a complexidade de alguém que, como poucos, abarca a leveza e a carga da saga. J.K. Rowling, mais uma vez, lhe posicionou no momento certo e necessário.

Apesar do olhar sonhador e do apego aos detalhes lúdicos, Luna teve muito do brilho da vida apagado diante de seus olhos ainda cedo. Com nove anos, presenciou a morte de sua mãe, ocasionada pelo insucesso de um experimento exótico. Fora, a partir de então, criada pelo pai, Xenofilo Lovegood, também detentor de uma sabedoria mais abrangente do que sua loucura deixava transparecer.

Os leitores que se depararam com a descrição da desmiolada e aluada Luna Lovegood podem ter se enganado com sua personalidade aparentemente rasa (construção arquitetada minuciosamente por uma J.K. sempre ávida por enigmas), mas os indícios de que sua sabedoria, sinceridade e inocência genuína seriam a chave para muitas das respostas soltas que permeavam o livro estavam presentes desde o início.

Luna era estudante da Corvinal, casa dos que tem a mente sempre alerta, onde os homens de grande espírito e saber sempre encontrarão companheiros seus iguais e possuem perspicácia, inteligência, criatividade e sabedoria. Talvez tais características impedissem Luna de vislumbrar o subjetivo, o utópico, o lúdico mascarado pela razão (dificuldade que Hermione Granger sempre enfrentou), mas as perdas e o sofrimento que macularam sua vida desde tão cedo a fizeram ver além.

É óbvio que a maioria dos colegas de Harry, apesar da lealdade e compreensão diante da história do amigo, nunca conseguiram dimensionar a amplitude do sofrimento que lhe tomava desde menino, crescendo órfão, rejeitado e sem ter ideia do significado de família. Luna se encaixou na narrativa para trazer muito mais do que leveza, coragem e sabedoria: veio para trazer compreensão.

O Harry Potter enlutado e sombrio pelo retorno de Voldemort era o mesmo menino outrora obcecado pelo Espelho de Osejed, intensamente afetado pelos Dementadores e, em Ordem da Fênix, o único capaz de enxergar os Testrálios. Diante da reiterada incredulidade dos indivíduos que o cercam por conta da série de infortúnios, visões e sentimentos conflitantes que acometiam Harry, o bruxo encontrou uma estranha identificação com a menina do olhar sonhador. Segundo Luna, Harry era tão normal quanto ela.

Mesmo que a princípio relutante, Harry passou a ter momentos mais prolongados de convívio com Luna, que se tornou personagem reiterado e de forte significado na saga. Luna esteve presente na Armada de Dumbledore, conjurando patronos corpóreos e poderosos, na Batalha do Departamento de Mistérios, demonstrando bravura e destemor, foi capaz de conjurar feitiços não-verbais ainda adolescente e ajudou Harry a decifrar o enigma que levaria a destruição da quinta Horcrux, o Diadema de Ravenclaw.

É improvável que J.K. crie um personagem com destaque sem passar algum significado forte e duradouro, mesmo que oculto nas entrelinhas. A mesma identificação que Harry sentiu, em tantos momentos, com Luna, fora compartilhada entre os inúmeros leitores apresentados à sua densa história.

Luna é a lembrança necessária de que nunca se deve esgotar as probabilidades ou julgar a profundidade através da mera aparência. É um aviso para aqueles que rejeitam o diferente e excluem o exótico sem saber da dor do outro e do quanto se pode aprender saindo da zona de conforto. É o conforto de ter ao seu lado alguém que não só se solidariza com seu sofrimento, mas sinta, entenda sua dor. É a prova de que a leveza vem de dentro, e não dos percalços que a vida, impiedosa e implacável, põe no caminho.

É o confronto com o irreal, com a familiaridade com o insano e o limiar da loucura. A certeza de que, não importa o que se transpareça, todos nós somos tão normais quanto Luna Lovegood.

2 thoughts on “Luna Lovegood | A Complexidade Que Reside Na Inocencia

  • 2 de October de 2017 at 10:07
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    “Luna é a lembrança necessária de que nunca se deve esgotar as probabilidades ou julgar a profundidade através da mera aparência. ”
    Sim Mariana, pra mim essa foi a contribuição incrível da Luna na história. Eu sou definitivamente apaixonada pela construção da personagem e como ela mescla tanta ludicidade e força.

    Obrigada por um texto tão incrível. 💜

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  • 2 de October de 2017 at 12:06
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    “Luna é a lembrança necessária de que nunca se deve esgotar as probabilidades ou julgar a profundidade através da mera aparência.” Como nossa amiga aí de cima do comentário, peguei o mesmo quote q super me identificou.
    Adorei o texto, cada dia mais seus textos sobre Harry Potter estão ótimos Mari! Parabéns!

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