Análise | Blade Runner 2049

5 (100%) 3 votes
“Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”

 

     A frase citada pelo replicante (termo usado aqui para andróides) Roy, interpretado perfeitamente por Rutger Hauer em Blade Runner, expõe toda a humanidade e anseio por viver que o personagem buscava. Exemplo de roteiro bem escrito, o tocante diálogo demonstra que Roy era talvez mais humano que Deckard (Harrison Ford), um detetive que “aposentava” replicantes e que escuta, reflexivamente, as palavras finais do vilão.
     Lançado em 1982, Blade Runner – o caçador de andróides, de Ridley Scott, foi um fracasso (o longa foi lançado na mesma época de E.T. – o extraterrestre, a maior bilheteria dos anos 80). A adaptação do livro Os andróides sonham com ovelhas elétricas, de Philip K. Dick, foi bastante incompreendida no seu lançamento, mas é um exemplo de que uma revisão detalhada pode mudar o rumo das coisas: 10 anos mais tarde estava de volta aos cinemas e apresentava a versão do diretor, com mudanças significativas, algo bastante comum em Hollywood hoje em dia. Dali em diante, o filme recebeu o devido reconhecimento: virou cult e tema para vários debates sobre filosofia, vida, amor e alguns questionamentos (sobre Deckard ser ou não um replicante), além de ganhar sua versão final em 2007. Uma obra ímpar e essencial para o gênero de ficção científica. Um filme de muitas perguntas e poucas respostas.

     Respostas que podem ser encontradas, ou não, na tardia e esperada continuação Blade Runner 2049. A sequência do clássico já vinha sendo trabalhada há décadas com Scott no comando (o diretor afirma que Blade Runner sempre foi seu melhor trabalho), mas seu ritmo de produção, que incluía Êxodo: deuses e reis, Perdido em Marte e Alien: Covenant, o impedia de assumir novamente a direção (mas não a função de produtor). Coube ao diretor mais badalado do momento a importante missão: Denis Villeneuve, dos ótimos Sicario: terra de ninguém e Os suspeitos, é digno de confiança e sua contratação aumentou as expectativas dos fãs e cinéfilos. Vindo de uma sucessão de filmes que agradaram os críticos, vide o recente A chegada, Villeneuve acerta mais uma vez.
     Sim, Blade Runner 2049, felizmente, é um continuação digna e cinema de grande qualidade. Escrito pelo mesmo roteirista do original, Hampton Fancher, e por Michael Green (Logan), o filme ainda é ambientado naquela megalópole de clima e visual poluídos. A chuva é constante e parece não haver mais salvação para o planeta. Mensagens subliminares e consumistas e luzes de neon ainda estão lá. Trinta anos após Deckard e sua amante Rachael sumirem, os replicantes estão mais avançados: por cortesia do enigmático Niander Wallace (Jared Leto, num papel inicialmente reservado para o saudoso David Bowie) e sua indústria, os andróides têm suas “vidas” prolongadas por muito mais que 4 anos, mas ainda sofrem perseguição e discriminação. A trama segue o blade runner K (Ryan Gosling, numa ótima atuação) que, após descobrir uma anomalia num corpo de uma replicante que pode gerar o caos se vir à tona, se envolve numa perigosa investigação (que conta novamente com um charmoso clima noir) envolvendo as industrias Wallace e o antigo policial Deckard. Assim com o personagem principal do anterior, K também cairá numa espiral de questionamentos existenciais e filosóficos.
     Blade Runner 2049, assim como o original, é tecnicamente uma obra prima. Os efeitos especiais são excelentes e convincentes, auxiliando as poucas, mas bem executadas, cenas de ação. A trilha composta por Hans Zimmer, Jóhann Jóhansson e Benjamin Wallfisch é poderosa e remete ao marcante trabalho do grego Vangelis. A direção de arte está envolvente e crível, recriando perfeitamente o ambiente do longa de 82: o contraste entre o escuro e as luzes de neon; propagandas da Sony, Coca-cola e até da empresa Atari são claramente visíveis. Há uma imersão naquela atmosfera envolvente e pessimista, cortesia também do diretor de fotografia Roger Deakins. Indicados 11 vezes ao Oscar, Deakins realiza um trabalho simétrico de luzes e sombras com maestria. Quem sabe agora a academia reconheça que já passou da hora de premiar esse gênio.
     Se em Blade Runner: o caçador de andróides tivemos personagens femininas interessantes como Rachael (Sean Young) e Pris (Daryl Hannah), não mudou muito na continuação. Blade Runner 2049 nos apresenta mulheres de forte importância para a trama, influenciando o complicado caso de K. Ana de Armas, vista recentemente em Cães de guerra, esbanja simpatia, melancolia e sensualidade (preparem-se para o mais incomum ménage a trois da história do cinema) como Joi, um holograma de grande relevância na vida do blade runner; Robin Wright (House of cards) está mais uma vez imponente e segura como a chefe de K e a holandesa Sylvia Hoekes pode ser considerada um achado e tanto: no papel da vilã Luv, replicante à serviço de Wallace, a atriz tem um arco bem construído e boas cenas de pancadaria com Gosling. Pode não ter o mesmo peso de um Roy Batty, mas com certeza tem mais destaque e tempo em tela que Jared Leto.
     De volta à ação, Harrison Ford tem uma atuação brilhante e mesmo aparecendo no fim do segundo ato,consegue compartilhar toda solidão e sacrifícios de Deckard, além de possuir boa química com Gosling (um “diálogo” dos dois com Elvis Presley cantando Can’t Help Falling In Love é impagável) . E vale uma menção ao cada vez mais requisitado Dave Batista. Mesmo aparecendo pouco, o Drax de Guardiões da galáxia tem um monólogo instigador com K e demonstra que o ator tem bastante talento.
     Com um duração desnecessariamente longa (o filme possui 2h40) devido ao tom contemplativo imposto por Villeneuve em diversos momentos, o filme pode até cansar, mas recupera o fôlego rapidamente. Blade Runner 2049 pode não se tornar um clássico agora como o anterior, mas merece todos os reconhecimentos por manter o espírito do filme de Ridley Scott, permanecendo como um bom estudo sobre o que (ainda) nos faz humanos e para onde vamos.
Nota :

One thought on “Análise | Blade Runner 2049

Leave a Reply

%d bloggers like this: