Fausto | Lançamento da adaptação para HQ na Bienal do livro de PE

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A Bienal trouxe mais surpresas para os amantes da nona arte, além de termos a primeira artist´s alley / beco dos artistas / feira de quadrinhos autorais (como queira chamar), teremos um lançamento de peso para o mercado, a literatura e com um gosto bem Pernambucano. Trata-se de Fausto, uma tragédia (Editora Peirópolis), adaptação da obra clássica de Goethe, roteirizada pelo Pernambucano Leonardo Santana, com o traço do Maranhense Rom Freire, com os quais tive o prazer de conversar, e saber melhor como foi este trabalho que será lançado na sexta feira (13/10), na Bienal internacional do livro de Pernambuco. Segue abaixo a entrevista.

 

Primeiro uma conversa com Leonardo Santana, Roteirista de quadrinhos experiente e grande respeito, que tomou pra si o desafio de construir esta adaptação tão revisitada em outras mídias:

 

Maxcon / Queria que você contasse um pouco de como foi o processo da adaptação de Fausto!

Léo – A adaptação de Fausto começou a partir da leitura e releitura do livro para identificação de quais partes deveriam entrar e quais partes poderiam ser suprimidas sem prejuízo para a leitura da obra adaptada.

A partir daí começou o processo de escrita do roteiro propriamente dito. Este trabalho durou cerca de 6 meses e exigiu muita atenção e estudo para a construção narrativa apropriada.

Depois disto, saí a procura de parceiros que topassem embarcar no projeto para a produção completa de 5 páginas da adaptação. Pra minha sorte, dois grandes artistas – o ilustrador Rom Freire e o colorista Dinei Ribeiro – aceitaram a proposta e nós produzimos toda uma sequência intermediária da hq onde Mefistófeles se apresenta para Fausto e o convence a assinar um contrato com sangue cujo prêmio é sua alma (Páginas 22 a 28).

De posse das páginas prontas, sai à procura de uma editora e fui muito bem recebido pela Peirópolis que nos deu todo o suporte que precisávamos para desenvolver o resto do projeto entregando um álbum lindíssimo.

Maxcon / Você vê o futuro mercadológico para quadrinhos com bons olhos?

Léo – Sim. os quadrinhos voltaram a ter evidência que mereciam com os filmes adaptados a partir de hqs (E não falo só dos filmes de super-heróis, mas diversos outros não só para o cinema como também para a animação e a televisão).

O mercado também vem percebendo que o que importa é a passagem da informação. O veículo vem ficando cada vez mais irrelevante. Assim sendo, tanto faz se você vai disponibilizar seu conteúdo em forma de livro, filme, hq, site. Cada vez mais vão haver pessoas interessadas mais na mensagem que você está passando. E quadrinhos é um veículo tão importante e espetacular quanto qualquer outro.

Some isso ao fato de que o prêmio jabuti agora tem uma categoria específica para quadrinhos e grandes eventos como a CCXP ter criado eventos/franquias fora do eixo Rio-São Paulo, você vai perceber que o mercado está apostando cada vez mais neste veículo que nós já conhecemos e amamos há muitos anos.

Maxcon / Quais os maiores desafios para o roteirista de quadrinhos (pode ser desde parcerias criativas até a publicação) independente?

Léo – O caminho do roteirista de quadrinhos é mais árduo do que o dos desenhistas. Tudo é desafio. Portanto, se você consegue sair do outro lado com uma hq publicada, você já pode se considerar um herói.

Parcerias são difíceis de se encontrar no começo. A não ser que você esteja pagando o desenhista. Você primeiro precisa mostrar que seu trabalho é legal para que o desenhista se entusiasme com a proposta e leve o trabalho adiante. Quanto mais trabalhos legais você faz, mais fácil vai ficando de encontrar os desenhistas. Mas isto não significa que eu tenho, agora, os desenhistas a minha disposição. Não, isto apenas significa que as parcerias tendem a ficar mais fáceis de serem fechadas.

Depois da parceria feita, os desafios se tornam os mesmos para roteiristas e desenhistas: É publicação, divulgação, distribuição, reconhecimento, etc.

Apesar de todos estes desafios, não consigo imaginar algo mais prazeroso de fazer do que produzir histórias em quadrinhos. A simbiose de texto e imagem me encantam de tal forma que, depois da hq pronta e publicada, não consigo me lembrar de nenhum dos percalços encontrados pelo meio do caminho.

Maxcon / E qual conselho primordial para quem se interessa em escrever roteiros para quadrinhos?

Léo – O melhor conselho que eu posso dar é o mesmo que Warren Ellis deu: se quer escrever sobre quadrinhos, abandone os quadrinhos e vá ler livros. Quem está muito focado em uma determinada coisa, acaba reproduzindo (geralmente de forma inferior) o que está acostumado a consumir. O ideal é se afastar desse meio e ver como outras pessoas contam histórias (não necessariamente histórias em quadrinhos). Procure, desta forma, encontrar sua própria voz, seu próprio estilo. Não estilo de escrever, mas estilo de contar uma história.

Depois disso, aí sim, procure ler alguma coisa sobre a parte técnica de se escrever quadrinhos. Há diversos livros por aí falando sobre o assunto (De alexandre Lobão, Gian Danton, etc). No meu site, eu também costumo dar dicas para escrever histórias em quadrinhos

(https://roteiristaleo.wordpress.com/)

 

Pude sentir mesmo à distância a simpatia deste colega de profissão, em tom descontraído porém bastante profissional, segue a entrevista com Rom Freire:

 

Maxcon / Primeiro queria que você me contasse, como surgiu essa parceria com o Leo e o que te chamou atenção para entrar nesse projeto?

Rom – Conheci o Léo pela internet, se não me engano, ainda na época do Orkut. Ele viu e gostou muito dos meus desenhos e me convidou a fazer uma página-teste para Fausto. Fiz, junto com outros desenhistas, e felizmente consegui o trabalho. O que me atraiu no projeto foi o fato de poder trabalhar com uma obra clássica, conhecida mundialmente, dar uma nova roupagem aos personagens, poder desenvolvê-los para os quadrinhos.

Maxcon / Você já tinha trabalhado dessa forma, com um projeto meio que por encomenda? Em geral o prazo é tranquilo para administrar trabalhos assim?

Rom – Eu trabalho profissionalmente com HQs desde 2009. Larguei um emprego de 17 anos na publicidade pra fazer quadrinhos. Então já estava acostumado com o ritmo de trabalho sob encomenda. Como em qualquer profissão, prazos devem ser cumpridos, mas confesso que o de Fausto nós extrapolamos um pouco, já que eram muitas páginas a serem feitas e eu ainda tinha outros trabalhos pra fazer, inclusive páginas para pequenas editoras dos EUA. Mas o pessoal da Peirópolis soube entender numa boa e respeitaram nosso tempo de produção.

O importante era a qualidade do material produzido.

Maxcon / Pegando um pouco da pergunta que fiz para o Léo, você trabalha profissionalmente, existe algum conselho para quem quer começar a trilhar o mesmo caminho?

 

Rom – Estudar muito, principalmente o trabalho de quem já publica. Depois produzir um bom portfólio, com páginas de quadrinhos com cenas cotidianas, mostrando que sabe desenhar de tudo, pessoas, animais, carros, casas, prédios… Não adianta produzir só pinups de caras musculosos se esmurrando, tem de mostrar narrativa, cenários, planos e contra planos! Mas não precisa enviar 20 páginas. Se for material de qualidade, 4 ou 5 páginas bastam. Depois pegar esse material e bater de porta em porta, enviar esse portfólio para as editoras, postar nas redes sociais… E se não for aceito, procure ouvir as críticas dos editores e corrigir o que está errado. E produzir sempre, para ter mais e mais páginas de amostra novas e com evolução da arte.

Maxcon / Uma última pergunta: Você venderia sua alma ao diabo pela nona arte?

Rom – HAHAHAHAHA. Acho que não, afinal, não acredito nessas coisas. Não se pactua com aquilo que não existe. Mas é melhor deixar quieto e não envolver religião nisso. Tem muita gente aí que não vai entender… xD

 

Para acompanhar mais dos trabalhos do Rom Freire:

https://www.facebook.com/rom.freire

https://romfreire.deviantart.com/

 

O lançamento de Fausto, uma tragédia será às 19h, com a presença do Leonardo, a Bienal acontece no Centro de Convenções de Pernambuco, porém você pode encontrar o Léo Santana no artist’s alley do evento que vai até o dia 15/10 (Domingo).

Mais detalhes sobre o evento de lançamento aqui!

Prestigie, e viva a nona arte. 🙂

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