Os androides ainda sonham com ovelhas?

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Em meio ao lançamento da sequência de Blade Runner, de 1982, nos perguntamos: qual é a importância do livro de Philip K. Dick nos dias de hoje?

      Se em 1968, o livro de Philip K. Dick trouxe ideias inovadoras, e que permaneceram inovadoras até a década de 1980, quando do lançamento da adaptação de Ridley Scott, será que hoje, já em pleno andamento de um novo século – e com mais uma adaptação, agora sob o comando de Denis Villeneuve – ainda há espaço para as inovações propostas por Dick? A resposta para isso seria sim, e não.

 

Tecnologia e existencialismo

      Se alguém olhar para Androides sonham com ovelhas elétricas? (Aleph, 2014) apenas como um mundo de tecnologia, algumas das quais se tornaram previsões muito acertadas, como teleconferências, comunicadores etc. – então verá a obra como anacrônica, objeto de serventia unicamente para os estúdios de filmes. Mas a tecnologia, a distopia apocalíptica, nunca foi a essência da obra de Phillip K. Dick. Ela foi, antes, o pano de fundo para reflexões mais profundas sobre o gênero humano. Sobre a essência do que é ser humano. Ela está na cruzada solitária de Isidore, e na relação aparentemente simples de Rick Deckard com sua ovelha sintética, nas reflexões sobre o mercerismo e o domínio do programa de Buster Amigão. O leitor deve penetrar essas cascas, aplicar um verdadeiro teste Voigt-Kampff, para, de certa forma, separar o que é vivo do que é artificial na obra de Dick. As ovelhas e os outros animais são o último elo da humanidade com algo orgânico, mas é também seu aprisionamento a esse mesmo algo orgânico, transformado, como fazemos com tudo, em índice de status. Não se deseja ter um animal pelo resgate da empatia, mas porque ainda se busca, mesmo no apocalipse, a aprovação do outro em uma busca irracional. Talvez por isso sejam as corujas que primeiro tenham definhando na poeira cósmica, visto que são um símbolo do saber.

      Os Nexus – os replicantes do cinema – também representam, para mim, algo de minoria, algo de ideologia de nossa pequenez e ainda, de nossa soberba ao julgarmos o outro pelo que pode e pelo que não pode. Buster Amigão e Mercer são duas vertentes da mesma moeda, a do domínio da mente em cultos sem sentido que evocam apenas uma corruptela do espírito humano. Ainda temos o conflito com os Rosen e as personalidades arquetípicas de Bryant, Iran e Garland. Sem falar nas de Rick e Isidore. Se um é o homem que já não sabe se o que sente é real ou tão artificial como as ovelhas ou as caixas de empatia que usa, o outro é o reflexo da inteligência múltipla e do espírito ainda latente que todos os homens podem carregar. Alguém dúvida de que algumas das melhores reflexões do livro saem da cabeça de J. R.?

      Os pensamentos de Androides sonham com ovelhas elétricas? soam ainda mais atuais visto o grau de mal-estar que vivemos ultimamente nos apelos por mais amor e liberdade, mais tolerância, aliado aos embates tanto no campo ideológico quanto no campo político. Chegamos ao ponto de já não sabermos se o teste Voigt-Kampff irá funcionar para identificarmos os replicantes ou sequer as Rachel Rosen de nosso cotidiano, inundados em um mundo de sentir artificial.

    Por tudo isso, dou louvores à obra de Denis Villeneuve. Pois ela não trouxe uma recriação do universo tecnológico de Blade Runner. Antes, trouxe uma recriação, uma continuação do livro de Philip K. Dick no seu melhor, ou seja, nas sutilezas que permeiam a obra e que, às vezes, passam despercebidas pelo leitor mais desatento ao fato principal de que não só os androides continuam sonhando com ovelhas, como também nós o fazemos, não sabendo se vivemos mais como Nexus-6, como especiais ou como, o que é mais fácil acreditar, como humanos perdidos tanto quanto em 1968.

Confira abaixo algumas imagens do livro de Philip K. Dick e de Blade Runner 2049, hoje nos cinemas!

One thought on “Os androides ainda sonham com ovelhas?

  • 16 de October de 2017 at 15:43
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    Uau! Isto sim é um artigo digno de respeito. parabéns pela excelente análise e pela forma com foi escrita!

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