Análise | Thor: Ragnarok

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Quando se lista as produções da Marvel Studios em ordem de popularidade entre os fãs, os dois filmes do Thor têm grandes chances de ficarem nos últimos lugares, ao lado de Homem de Ferro 3 e O Incrível Hulk . Nas HQs, o Deus do Trovão sempre foi um personagem com personalidade e mitologia bastante ricas, mas seus filmes apresentavam um Thor ofuscado e piadista e uma Asgard mal explorada. Disposta a mudar esse cenário, a Marvel escolheu uma das histórias mais emblemáticas do Thor com a promessa de entregar um filme explosivamente épico: o Ragnarok, o fim do mundo, de acordo com a mitologia nórdica. O resultado, porém, é Thor: Ragnarok, um filme superior aos anteriores, mas carente de seriedade.

 

A trama se passa dois anos após os eventos de Vingadores: Era de Ultron. Depois de falhar em encontrar as Jóias do Infinito, Thor fica ciente que o Ragnarok se aproxima e decide retornar a Asgard, onde descobre que o trono foi usurpado pelo seu meio-irmão dado como morto, Loki, e que Odin foi exilado na Terra. Durante a procura por seu pai, o Deus do Trovão é confrontado pela cruel Deusa da Morte, Hela, que retornou para proclamar sua autoridade sobre Asgard e todos os outros reinos. Derrotado e sem seu martelo Mjolnir, Thor é despachado para o planeta-arena Sakaar, governado pelo excêntrico Grão-Mestre, e forçado a confrontar o campeão dos gladiadores, seu amigo vingador Hulk numa brutalmente divertida luta (uma singela adaptação da minissérie Planeta Hulk). Contando com o apoio do Gigante Esmeralda, da destemida guerreira Valquíria e até um duvidável Loki, Thor decide escapar de Sakaar e deter Hela e o fim de tudo.

Com uma premissa dessas é de se esperar uma aventura repleta de algumas piadas pontuais, a chamada Fórmula-Marvel, mas Thor: Ragnarok é exatamente o oposto, podendo ser considerado uma grandiosa comédia com alguns bons momentos de ação. E, felizmente, é uma comédia engraçadíssima. O roteiro escrito a três mão é bastante eficiente em arrancar risos em várias situações e principalmente dos seus personagens. A atuação de Cris Hemsworth já comprova isso: além de continuar carismático e mandar bem nas cenas de luta, o ator consegue arrancar boas gargalhadas (e alguns suspiros) do público, assim como fez no reboot Caça-Fantasmas. É seu melhor desempenho como Thor e, pela primeira vez, não é escanteado por Tom Hiddleston e seu Loki, embora este ainda dá um show como o melhor e mais amado vilão do UCM. Outros bons exemplos são o simpático Korg, um pedregoso alien que ajuda Thor em Sakaar e dono das melhores falas, e o veterano Jeff Goldblum, que interpreta o Grão-Mestre de maneira tão hilária e com grande presença, que sempre que ele sai de cena, o desejo que ele retorne vem à tona. Até Mark Ruffalo, que passa mais tempo em tela como Hulk, distribui piadas funcionais.

O filme ainda conta com um grande elenco: interpretada propositalmente de forma canastra pela duplamente oscarizada Cate Blanchett (que revelou ter aceitado o papel para agradar aos filhos), Hela é uma boa vilã, ainda que merecesse destaque maior. Outros destaques no elenco ficam por conta de Tessa Thompson (Creed: nascido para lutar), ótima como Valquíria e dona do arco mais rico do filme, e o eterno Hannibal Lecter, Anthony Hopkins, tocante como Odin. A única bola fora fica pela mal utilização de Karl Urban, de Star Trek e Dredd, como Skurge.

Mesmo bem vindo, o tom descaradamente cômico de Thor: Ragnarok afasta qualquer senso de ameaça que Hela e o Ragnarok deveriam passar. Uma pena, pois esse apocalipse nórdico necessitava de um tratamento mais cuidadoso. Mas isso é compensado pelo lindo tratamento técnico que o filme recebe. A sensação de estar folheando um quadrinho é presente: os figurinos fiéis, os cenários detalhistas e coloridos, e a fotografia Javier Aguirresarobe remetem aos clássicos quadrinhos desenhados pelo Rei Jack Kirby. Os efeitos especias são de encher os olhos, apresentando um desfile de seres fantásticos e o mais bem feito Hulk dos cinemas. Se em Thor (2011) o tom foi shakespeariano graças ao teatral diretor e também ator Kenneth Branagh, e em Thor:  O Mundo Sombrio (2013), Alan Taylor, de Game of Thrones, tentou deixar tudo mais épico, Thor: Ragnarok pedia por uma direção que entendesse de comédia. O neozelandês Taika Waititi, de O Que Fazemos nas Sombras (2014) foi a escolha perfeita para comandar esse carnaval psicodélico e ainda acertou em dar liberdade para o elenco improvisar falas e piadas.

Thor: Ragnarok é uma assumida e charmosa comédia pastelão. Encerra um bom ano para a Marvel Studios nos cinemas (que também contou com os ótimos Guardiões da Galáxia Vol.2 e Homem-Aranha: De Volta ao Lar) e deixará o público ansioso pelo aguardado Vingadores: Guerra Infinita. É o filme que o Deus do Trovão merecia para provar que é um personagem divertido e fortalecer o pensamento de que o Incrível Hulk necessita de um filme solo. Não se sabe se ficará entre os primeiros da lista de populares do estúdio, embora mereça, mas é garantia de bom entretenimento e boas risadas. Nada que a Marvel já não tenha feito antes.

E uma ajuda de utilidade pública: a canção encaixada perfeitamente duas vezes no filme é Immigrant Song, do Led Zeppelin e o filme tem duas cenas durante os créditos. Não vá embora logo.

 

Nota:

 

 

 

 

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