O Poder dos Feitiços – Expecto Patronum

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O primeiro indício de manifestação de magia numa criança, no início do descobrimento de sua inserção no mundo bruxo, se dá através de pequenos acontecimentos mágicos inexplicáveis que não dependem de varinhas ou outros utensílios para tomar forma. A magia que reside no bruxo é responsável por trazer à tona estranhos feitos como escapar de sofrer uma queda brusca, fazer objetos se moverem sem tocar neles e, de acordo com a experiência do protagonista, aparecer em cima de telhados, acordar com o cabelo rapidamente crescido após ser cortado ou fazer desaparecer o vidro no meio de um zoológico.

No entanto, é a varinha a responsável pela concentração do poder mágico e seu consequente extravasamento através do lançamento de feitiços e encantamentos. A magia contida em cada feitiço pode gerar efeitos positivos: curar, consertar, fazer objetos levitarem e trazer a luz. Muitos, no entanto, são executados com o intuito de dominação, conjuração das trevas, causar dor em outrem e até mesmo acabar com outras vidas. O feitiço que será abordado hoje, dentre os muitos que foram introduzidos por J. K. Rowling ao decorrer da saga, é o expecto patronum, que talvez detenha um dos maiores significados na área de feitiços para os personagens, para nós, leitores, e para a própria J. K. Rowling.

O feitiço nos é apresentado em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, quando o castelo de Hogwarts está tomado por uma névoa de aflição e angústia por conta da fuga de Sirius Black, criminoso temido por toda a sociedade bruxa. O desconhecimento acerca de seu paradeiro motivou a ida de dementadores para o castelo – e é importante compreender tais criaturas antes de adentrar mais profundamente na execução e efeitos do expecto patronum.

Os dementadores são criaturas das trevas que possuem todos os seus instintos voltados para a extração da felicidade humana. Seu alimento é a retirada das lembranças felizes, esperança, paz e tranquilidade daquele de quem se aproxima. Na sua presença, o indivíduo é deixado única e exclusivamente com suas recordações mais tristes, angustiantes e desesperadoras, e é tomado por uma depressão que incapacita e paralisa. Ao contrário de outras criaturas, feitiços ou maldições, os dementadores afetam a alma, substituindo quaisquer sentimentos positivos por um aflito vazio.

Inicialmente o mundo bruxo fez uso dos dementadores com o intuito de resguardar os terrenos de Azkaban, prisão bruxa que guarda em seus aposentos os responsáveis pela execução de crimes desprezíveis e socialmente inaceitáveis. Posteriormente, se fizeram presentes nos terrenos de Hogwarts na época em que comensais da morte dominaram a escola e voltaram sua fidelidade para o Lorde das Trevas.

Harry Potter sentiu o efeito dos dementadores pela primeira vez no Expresso de Hogwarts, em seu terceiro ano na escola de magia e bruxaria. Harry era anormalmente afetado pelas criaturas. Nele, os sintomas eram estranhamente intensificados: sua cabeça era tomada pelos gritos de sua mãe antes da morte e em seguida caía, desacordado. As ocasiões em encontrava com as criaturas das trevas lhe traziam sofrimento em demasia.

Por conta disso – e pelo tempo vago que a impossibilidade de ir a Hogsmead lhe trazia – Harry reservou uma boa parte de seu tempo tentando entender o motivo pelo qual era, mais uma vez, diferente de seus colegas e desmaiava na presença de dementadores. Perseguiu, então, uma forma mágica de se resguardar de seus ataques imprevisíveis. Com isso, o já próximo relacionamento com o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas Remo Lupin se estreitou e Harry passou a ter aulas particulares para evitar os infortúnios com as criaturas.

O feitiço responsável por espantar os dementadores e consequentemente os efeitos avassaladores de sua presença é o expecto patronum. Se a presença de dementadores traz trevas e escuridão, o feitiço é justamente o oposto. Consiste na conjuração de um animal protetor – que varia de bruxo para bruxo – com coloração branco-preateada extremamente forte, que afasta os dementadores presentes.

O feitiço do patrono é de dificílima execução. A maioria dos bruxos é incapaz de produzi-lo, visto que sua realização consiste na habilidade técnica e também no aperfeiçoamento psicológico. O patrono só é produzido quando o bruxo concentra todos os seus pensamentos, sentimentos e emoções para sua lembrança mais feliz. Parte da dificuldade se volta para a escolha de um pensamento de fato jubiloso, suficientemente forte para a conjuração, e também para a incrível concentração em focar apenas nele enquanto dementadores estão à espreita.

O que é de extrema dificuldade para bruxos mais velhos e habilidosos, que na tentativa de execução produzem apenas um vapor incorpóreo, foi facilmente domado por Harry. Aos 13 anos, após poucas aulas particulares, Harry já conseguia conjurar um patrono completo, com um animal de proteção que assumia a forma de um veado. A dificuldade inicial consistiu em achar uma lembrança sólida e forte para a conjuração: poucos foram os momentos de intenso regozijo na vida de um Harry órfão, sofrido e com a infância maculada pelos maus tratos dos Dursley. Fora, no entanto, dentro da própria tristeza que Harry encontrara a lembrança feliz para sustentar o patrono: concentrou-se no momento em que descobriu que ia ser bruxo e deixar a casa dos tios para frequentar Hogwarts.

É curiosa – mas não injustificada – a escolha de J.K. Rowling de eleger Harry Potter e Luna Lovegood como os bruxos com mais facilidade de conjurar um patrono. Nos traz a grata lição de que é exatamente por perpassar a tristeza que o regozijo com a felicidade se torna latente. A familiaridade com a escuridão torna o indivíduo capaz de apreciar muito mais a claridade.

J.K. Rowling não trouxe a figura dos dementadores e do feitiço responsável por rechaçá-los de forma arbitrária. A escritora fora tomada por uma intensa depressão à época da construção da história, em meio ao desemprego, morte da mãe e responsabilidade de ser mãe solteira. Todos os livros são permeados pela preocupação de J.K. em passar aos leitores pequenas lições sobre amor, solidariedade, família e amizade. A figura dos dementadores, por sua vez, carrega outro tipo de finalidade: a de oferecer ajuda.

Já fora afirmado por Rowling em entrevistas que o dementador representa a depressão. A analogia se torna clara após tal afirmação: os dementadores sugam a esperança, a alegria, a vontade de viver, exatamente como os sintomas da depressão se manifestam. A forma como o indivíduo é afetado é descrita de forma tão exata e certeira por J.K. justamente por ela mesma ter passado por isso: durante a depressão, ela sentiu que nunca mais ia ser feliz novamente.

Não é fácil encontrar saídas, fórmulas e soluções para a depressão. Ao contrário da postura de subestimação geralmente adotada socialmente, é uma doença, que demanda atenção e acompanhamento médico. No entanto, a parcela mágica que podemos levar para a nossa vida através dos ensinamentos de J.K. é que mesmo em meio às trevas, solidão e tristeza, se atenha aos pensamentos felizes. Se agarre ao fio de esperança. Mesmo que as tentativas inicialmente sejam como névoas incorpóreas que saem das varinhas, não desista até que seus próprios sentimentos e pensamentos sejam a proteção corpórea que você precisa para lhe trazer a esperança novamente.

Com esse sopro de otimismo, bom final de semana e até a próxima!

3 thoughts on “O Poder dos Feitiços – Expecto Patronum

  • 27 de October de 2017 at 14:42
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    Mari, como sempre, nos deixando enfeitiçados pela beleza do universo Harry Potter.Amei muito, parabéns.

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    • 27 de October de 2017 at 16:12
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      Obrigada, linda, pelo comentário e pela presença constante. <3

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