Análise | Gosto se Discute

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Programas gastronômicos estão em alta no cenário nacional. Master Chef, Bake Off Brasil e Hell’s Kitchen Brasil são sucessos absolutos e mostram o quanto o brasileiro vem consumindo esse modelo. Usar a gastronomia como tema para uma comédia romântica, apesar de não ser uma ideia original, ainda tem um charme atrativo. Somado à presença de uma youtuber de grande audiência, Gosto se Discute, dirigido por André Pellenz (Minha Mãe é uma Peça 2), tinha uma boa receita, mas faltou um pouco de sal no roteiro.

Não espere aqui uma obra do nível de Chocolate (2000) ou até do cativante Chef (2014), de Jon Fevreau, filmes que deixavam o espectador babando de fome. Gosto se Discute apresenta o chef de cozinha Augusto (Cássio Gabus Mendes, também produtor), dono de um restaurante que vem perdendo sua clientela para o food truck de seu antigo funcionário, o desprezível Patrick (Gabriel Godoy). Sob risco de perder o estabelecimento, é obrigado a conviver com a auditora do banco, Cristina (Kéfera Buchmann, tentando investir firmemente na carreira de atriz), uma workaholic mandona, que tem a tarefa de modernizar não apenas o local como também o cardápio, o que gera grande atrito entre os dois. Devido ao intenso estresse, Augusto passa a sofrer de uma síndrome que, ironicamente, o faz perder o paladar.

Logo de cara já se identifica que o filme não convence como comédia e muito menos como romance. Ainda que tire algumas poucas risadas através do ex-Titãs Paulo Miklos, no papel do médico de Augusto, e do cantor Zéu Britto, que interpreta um cozinheiro gago, o longa se agarra em piadas envolvendo palavrões e personagens caricatos. Gabus Mendes se sai bem como uma cópia do mal-humorado chef Henrique Fogaça e como um homem que parou no tempo, mas sua química com Kéfera é fraca, apesar do esforço da atriz. É notável sua melhora em relação ao seu trabalho na comédia É Fada! embora precise se esforçar mais em momentos mais dramáticos.

O roteiro do filme se estica demais nas desavenças da dupla de protagonista e pouco investe no desenvolvimento do romance entre eles. Quando promete engrenar, já é tarde e os créditos já estão prestes a subir. As melhores cenas se restringem à cozinha do restaurante, onde todo o caos e correria que se espera ver no ambiente é bem captado, mas não é o suficiente para compensar o já citados problemas. O filme perde boas oportunidades ao não explorar a rivalidade entre Augusto e Patrick, o arcaico e o “revolucionário”, e por explorar poucas locações: São Paulo é um centro gastronômico muito rico, como fica claro no delicioso passeio de Augusto e Cristina num mercado, mas o desenrolar da trama se limita ao restaurante do protagonista em em grande parte da projeção.

Caso tivesse mais empenho em se afastar do estilo das inúmeras (e péssimas) comédias nacionais e tentasse ao menos reprisar o que Favreau entregou em Chef, Gosto se Discute com certeza seria um filme cinco “pratinhos”. O que é servido mais uma vez é um filme indigesto (que confiante no seu sucesso, deixa uma brecha para continuação), apesar do constante pedido do público por algo mais tragável no gênero. Como diria o chef Erick Jacquin, “Faltou tompero”.

 

Nota:

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