Análise | Jogos Mortais: Jigsaw

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Em 2004, um modesto filme de suspense tomou todo mundo de surpresa. Jogos Mortais (Saw, no  original), dirigido por James Wan, na época, um desconhecido que ninguém imaginaria que iria comandar sucessos como Sobrenatural, Invocação do Mal e Velozes e Furiosos 7, contava com um clima envolvente e pessimista e uma trama sobre serial killer regada a bastante sangue e reviravoltas. O longa ainda inaugurou uma tendência entre os filmes de terror, o torture porn , com violência física e psicológica explícita, resultando em filmes como O Albergue e Doce Vingança. Após a arrecadação de US$ 103 milhões de dólares (ao custo de US$ 1,2 milhão), os produtores enxergaram ali uma galinha dos ovos de ouro e, tradicionalmente, lançaram uma continuação por ano, resultando em seis continuações de qualidades variadas. Entretanto, como o título indicava, Jogos Mortais: O Final (2010), primeiro da franquia a utilizar o descartável uso de 3D, tudo parecia ter acabado ali.

Para frear a saturação da série, os produtores deixaram o assassino Jigsaw repousar por sete anos e lançam agora Jogos Mortais: Jigsaw, dirigido pelos irmãos Spierig, do excelente O Predestinado (sério, veja esse filme!). Não espere nada inovador no roteiro e personagens: cinco desconhecidos com passados obscuros acordam em um celeiro repleto de armadilhas e jogos macabros. Enquanto lutam e sangram para sobreviver, dois detetives investigam um rastro de corpos largados em vários locais e que podem indicar o retorno do falecido assassino John Kramer, o Jigsaw. O maior acerto do roteiro de Josh Stolberg e Pete Goldfinger fica por conta do mistério envolvendo o assassino e sua volta. Com várias pistas despertando a ideia que Kramer (vilão eternizado pela boa atuação de Tobin Bell) está agindo novamente, a dupla de escritores conseguem fazer o espectador a questionar tal fato e a resposta para isso é até aceitável.

Porém, quando escrevi que isso era o maior acerto do roteiro acabei esquecendo de mencionar que também era o único. Diálogos sofríveis e explicativos ao extremo insultam a inteligência do espectador em vários momentos. A dupla de detetives e outra de legistas praticamente fala para o público tudo que ele já está vendo ou já sabe. As vítimas são outro problema grave, já que nenhuma possui algum carisma ou plot para nos apegarmos e torcemos por sua sobrevivência; estão ali apenas para serem abatidos. O longa ainda entrega uma cena constrangedora, na qual uma corredora nota que pessoas no parque estão olhando algo atrás dela e ao se virar, se deparar com um corpo pendurado (de alguém que ela desconhece) e grita como uma japonesa fugindo do Godzilla. E não podemos nos esquecer da necessidade do filme possuir um final chocante e inesperado, o que parcialmente é visto aqui. Tudo isso comprova que Jogos Mortais: Jigsaw é uma triste amálgama dos problemas dos filmes anteriores.

Visualmente, o filme tem uma melhora em relação a todos os anteriores, cortesia do talento dos diretores. Sai a fotografia escura, cenários teatrais e cortes frenéticos; e o que temos são enquadramento esteticamente bem feitos, maior uso de cenários naturais e edição mais contida e compreensível. Mas o que realmente importa na franquia, aquilo que é o motivo dos filmes ter um público fiel são as mortes e as armadilhas do vilão, o que o longa consegue proporcionar. A tensão e nojo estão presentes em mortes sangrentas e gratuitamente explícitas (uma, em particular, me lembrou o Demogorgon, de Stranger Things).

Longe de ser o pior da série (a quinta parte tem esse título, com certeza), Jogos Mortais: Jigsaw ignora todos os filmes após Jogos Mortais 3 (2006), o último bom filme da franquia, e apesar dos citados e repetidos problemas, consegue entreter. As mortes ainda divertem (estranho escrever isso) e a participação e Jigsaw na trama é inteligente, o que é o bastante para cativar uma nova geração. Um prazer culposo. Pra quem tem estômago forte.

Nota:

 

 

 

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