Análise | Extraordinário

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Auggie Pullman, 10 anos, é um garoto inteligente, engraçado e amigável. É o xodó da família, sonha em ser astronauta e ama Star Wars e videogames. Sua mãe acha que já é tempo do menino deixar de ter aulas em casa e, finalmente, frequentar uma escola, o que o amedronta. Todo o seu nervosismo aumenta com a recepção por parte das crianças do colégio, que o olham com espanto e se afastam para que ele não as toque, além ouvir comentários maldosos. Por que um garoto tão legal estaria passado por essa desagradável e, infelizmente comum, situação? Simplesmente pelo fato de ter um rosto marcado por várias cirurgias plásticas, já que nasceu com uma deformidade genética rara. Suas angustias, descobertas e superações serão vistas ao longo de Extraordinário, filme dirigido por Stephen Chbosky (As Vantagens de ser Invisível) a partir do famoso livro de R.J. Palacio.

O roteiro escrito por Chbosky, Steve Conrad e Jack Thorne aborda o bullying sofrido por Auggie de inúmeras formas, seja através de bilhetes com xingamentos ou até por expressões de estranhamento ou repulsa. Em contrapartida, o menino tem em sua família a fortaleza que precisa, principalmente sua mãe (Julia Roberts, maternalmente cativante), que abdicou da carreira para viver pelo filho. Os momentos e diálogos entre os dois ou entre Auggie e seu descolado pai (papel que cai como uma luva para Owen Wilson, que possui uma cena que remete a Marley e Eu) comovem e/ou arrancam risadas, algo que o filme executa muito bem ao longo da projeção. Sério, levem uma caixa de lenços, talvez duas.

O grande destaque é o tratamento dado a alguns personagens: apesar de Auggie ser o protagonista, seus parentes e colegas de escola têm um bom tempo em tela para explorar suas personalidades e dramas através de vários pontos de vista. Via (interpretada pela ótima Izabela Vidovic), irmã mais velha do garoto sofre em silêncio por não ter a mesma atenção dos pais que Auggie recebe, é muito bem desenvolvida; Miranda (Danielle Rose Russel, de Os Originais) esnoba a antes melhor amiga Via e adota um visual e atitudes para se tornar popular na escola; há o simpático Jack Will (Noah Jupe, a fofura em pessoa), que se afeiçoa a Auggie, mas acaba cometendo um erro ao tentar impressionar os colegas da turma. E temos o jovem praticante de bullying, Julian (Bryce Gheisar), que ataca Auggie de várias formas e, inesperadamente, gera pena quando sabemos que ele é assim por crescer num meio onde pais nada éticos acham que bullying é vitimismo. Com esse estudo de personagens, Extraordinário detalha de modo honesto a realidade escolar de várias crianças e adolescentes, onde máscaras e atitudes são usadas para satisfação alheia.

E agora, a alma do filme: Jacob Tremblay já tinha comovido o mundo e os críticos com sua performance no premiado O Quarto de Jack, mas em Extraordinário ele se supera e volta a surpreender. Mesmo debaixo de uma pesada e eficaz maquiagem, o talentoso garoto consegue entregar um personagem complexo, sofrido e engraçado  (suas “alucinações” com alguns personagens de Star War são hilárias). Para cinéfilos antigos, impossível não associar seu personagem ao jovem Rocky Dennis, que sofria de uma doença raríssima, e teve sua vida retratada no filme Marcas do Destino (1985), com Cher e Eric Stoltz.

Extraordinário é um feel good movie de qualidade. Claro que conta com momentos chaves e uma trilha manipulativa para arrancar lágrimas da platéia, mas o roteiro e personagens honestos nos compram, deixando uma forte mensagem sobre aceitar o que é diferente e questionamentos sobre o perigo do bullying, assunto que ganha mais destaque na sociedade quando suas consequências vem à tona.

Nota: 

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