Análise | Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço

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“- Vamos logo quebrar uns ossos!  

– Isso, campeão!

– Peraí, o que foi mesmo que estes caras fizeram contra mim?

– Até agora, nada.

– E por que eu tenho que brigar com eles?

– Err … Eles são espiões, sabem que você foi inseminado e querem te vivisseccionar.

– Mas que filhos da puta! “

Minha infância e adolescência foram marcadas por tudo que é tipo de filme trash. As melhores lembranças vêm de filmes que eram exibidos na Bandeirantes, como no Cine Trash (que Deus o tenha), e das saudosas sessões do Cinema em Casa. Filmes com robôs num apocalipse, zumbis, palhaços assassinos do espaço etc. Só porqueira, mas porqueira divertida e sem censura. Contar uma boa história com uma premissa tosca e personagens idem já é mais do que suficiente para ganhar minha atenção e preencher esse vazio que fãs de filmes B possuem nessa época de produções grandiosas e corretas. E me agradar foi o mínimo que o artista paraibano Juscelino Neco conseguiu; na verdade ele ganhou um leitor desesperado para ler mais publicações suas, graças ao genial Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço (Editora Veneta).

A trama tem como protagonista o nerd Dolfilander, que ganhou esse nome em homenagem ao “grande” ator sueco que interpretou o Ivan Drago em Rocky IV, de quem seu pai era fã. Sem rumo na vida e com um emprego chato num almoxarifado de um supermercado (nem tão chato, já que tem liberdade de sobra para jogar World of Warcraft), o jovem acaba sofrendo um bizarro acidente no qual um parafuso se aloja no seu cérebro. Graças a um milagre, Dolfi não morre, mas fica impossibilitado de retirar o objeto da cabeça e segundo o laudo médico, pode ter dores fortes e até alucinações. Não se sabe se o que vem a seguir é derivado de alucinações: depois de ser inseminado por uma mulher-aranha, Dolfilander acaba recrutado por uma agencia secreta (que lhe concede alguns poderes) e precisará enfrentar a mais bizarra horda de adversários, como bandidos da Yakuza, macacos anabolizados com cérebros humanos, canibais deformados, aliens e, claro, zumbis (não podiam faltar eles).

É praticamente impossível não se apegar com o inocente e tapado protagonista. Afinal, quem já não quis sair por aí desmembrando mortos-vivos com uma motosserra ou espancar Yakuzas enquanto solta frases de efeitos? Não importa o quão pirada pode ser a jornada ou motivos para ter entrado nela, Dolfilander se joga (em alguns casos é literalmente empurrado) nessa espiral de violência, palavrões, sexo e muito sangue com a empolgação de um adolescente cheio de hormônios. Outro personagem de grande destaque e dono de diálogos de rachar de rir é o “agente” Wilson, responsável por colocar Dolfi em diversas enrascadas e dono de um Chevette (que segundo ele, é completamente discreto e adequado a um agente secreto).

Confesso que tive que reler a obra para pescar várias referências a clássicos como Quadrilha de Sádicos (1977), A Experiência (1995) e até mesmo Massacre no Bairro Japonês (aquele em que Dolph Lundgren, o original, trucida a Yakuza), mas foi um prazer, ainda mais levando em consideração a excelente arte visceral de Neco. O único ponto negativo são alguns poucos balões de fala fora de ordem, mas nada de que impeça a fluidez da agradável leitura.

Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço conquistou uma vaga na minha lista de melhores leituras do ano, ao lado de outro trabalho de Juscelino Neco, Matadouro de Unicórnios (título que resenharei em breve com toda certeza), por resgatar aquele espírito nonsense e descompromissado dos anos 80/90. Agora me deem licença porque acho que irei rever Massacre no Bairro Japonês ou Reanimator. Boa leitura.

Nota:

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