Os tolos morrem antes: Uma obra-prima do autor de O Poderoso Chefão

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Mario Puzo, autor de O chefão, que acabou sendo transformado na masterpiece O Poderoso Chefão estrelada por Al Pacino, sempre remou contra a maré. Crescendo em um bairro pobre, escolheu ser escritor quando não era lá muito rentável viver disso (ainda não é, mas…). Acabou indo pra guerra, mas voltou e não desistiu do sonho. Em 1968, escreveu uma das melhores obras da literatura americana do século XX: O Chefão, que, como acabamos de dizer acima, virou a obra monumental de Francis Ford Coppolla. Puzo, com seu jeito de contar história que já pareciam um roteiro pronto, imortalizou a mitologia da máfia ítalo-americana, sendo essa a obra que o consagrou como escritor renomado. Depois, viriam os roteiros para outros dois clássicos do cinema: Superman e Superman II, e Mario Puzo viraria uma lenda do cinema e da literatura.

Entretanto, uma obra do autor, que é por muitos, inclusive por ele mesmo, considerada como seu melhor livro, sempre foi ofuscado pelo sucesso, na

 literatura, das intrigas de máfia que ele mesmo ajudou a imortalizar. Remando novamente contra a maré, Mario Puzo abandonou a escrita sobre chefes da droga para escrever Os tolos morrem antes (Fools die), um meta-livro, sobre um roteirista meia-boca que sonha exatamente adaptar um de seus livros para o cinema. John Merlyn é o retrato do escritor contemporâneo, o que lida com contas e a dificuldade de barrar de criar filhos na periferia, tendo que se preocupar em sobreviver, com um emprego “normal”, enquanto busca a realização das aspirações artísticas.

O livro já te surpreende nas primeiras páginas, com uma construção de narrativa que vai além da linearidade, colocando um narrador onisciente contando a história de quatro personagens em um cassino. O foco da história se debruça sobre um dos quatro, sendo ele o protagonista do primeiro ato, porém… a trama se transforma e recai sobre Merlyn, um dos quatro do cassino, e abandona também o narrador que tudo sabe, tal qual o personagem coadjuvante que concluiu seu ciclo em um roteiro. Há quem diga que Puzo usou uma técnica novelesca e, depois, teve de voltar à narrativa convencional por não saber trabalhar com esse tipo de narrativa. Eu digo que ele habilmente utilizou esta técnica para cooptar a atenção do leitor desde o primeiro capítulo, brincando com o foco do mesmo, manipulando a atenção livremente.

Daí por diante, temos realmente o desenvolvimento de Merlyn escrevendo livros e buscando uma adaptação para o cinema, tendo uma narrativa que retrata exatamente isso, até os clichês parecem aparecer ali para exaltar o espírito de Merlyn, como sua amante, Cully, o vigarista de cassino típico, o contrato para o cinema e a ascensão ao estrelato, a queda… tudo nos mergulha em cenários e descrições que fazem lembras os melhores trabalhos de Scorcese (aliás, bastante influenciado pela obra de Puzo).

Mesmo com tudo isso, Os tolos morrem antes é uma obra esquecida de Mario Puzo, em que só O Chefão reina absoluto. O próprio autor voltaria ao tema da máfia posteriormente, sugado pelo estrelismo com que esse livro e os filmes se mantiveram ao longo dos anos. Contudo, na opinião deste humilde post, a maturidade de Puzo está no livro de 1978, tanto narrativa quanto estilisticamente, e fica a dica para você e, por que não, para Hollywood: vamos realizar uma leitura desse livro e tornar John Merlyn sua própria realidade? “Vamos nos separar das guerras, doenças, morte e loucura, mas não da passagem do tempo” Em tempo, diria eu.

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