A Amiga Genial e a narrativa crescente de Elena Ferrante

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“Tenho saudades do que não vivi” Essa frase de Ruy Barbosa – ou pelo menos atribuída a ele – resume bem o sentimento de se ler um livro de Elena Ferrante. A autora italiana, cujo verdadeiro nome ninguém realmente sabe, tem o melhor da literatura de caráter regional que podemos ver em vários grandes escritores. Se em Jorge Amado, dá pra sentir o clima quente e o cheiro do dendê, se em Garcia Márquez dá para ver o vento e a luz frescos em contraste com um nonagenário, em A Amiga Genial – 1º volume da trilogia napolitana, de Ferrante – somos transportados ao clima ensolarado da Itália dos anos 1950, com os maneirismos, gritos, explosões de conflitos que se imagina desse contexto. Mas a narrativa de Elena tem algo que só encontramos nela, algo de genial.

A história desse primeiro livro é contada por Elena Greco, uma mulher já adulta, cuja amiga Lina (ela a chama de Lila) sai e desaparece, largando um filho sem deixar qualquer rastro. A partir daí, Elena relembra a vida com Lila, desde a infância até a vida adulta, levando-nos a entender os motivos que levaram a amiga a abandonar  tudo. E é justamente aí que o livro brilha, ao criar uma atmosfera sensível da Itália, de Nápolis, desde os anos 1950n não somente na retratação do ambiente e das pessoas, mas na própria construção do texto. Quando Elena remonta à infância, as palavras parecem propositalmente utilizar um estilo infantil para descrever os acontecimentos. Quando chegam à adolescência, os fatos já carregam um ar mais complexo, com detalhes mais pertinentes, uma melancolia confusa de quem ainda não conhece a si mesmo na transição para a vida adulta. Ao chegar à maioridade, temos um discurso mais sereno, comentários sobre os sentimentos mais aguçados e uma capacidade de observação de quem, agora, compreende o mundo a sua volta.

Desde o princípio, Elena é a sombra de Lila, e por isso, genialmente, conseguimos penetrar nas duas personagens centrais pelo ponto de vista de apenas uma, que conta a história.

A HBO parece que também percebeu as qualidades de Elena Ferrante, e vai adaptar a trilogia napolitana em uma série a estrear ainda este ano.

As palavras de Elena nos levam a um mundo incomum que se torna corriqueiro para nós à medida que passamos as páginas, e sentimos uma nostalgia enorme de coisas que nem de perto presenciamos. A Amiga Genial é a frase de Ruy Barbosa transformada em literatura.

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