Olhar crítico #3: A rebeldia das tomadas longas de Alfonso Cuarón

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Depois de um hiato, Olhar crítico retoma suas atividades de forma lindamente rebelde. É que falaremos hoje de um dos melhores diretores da nova geração, e que foi expulso da faculdade de cinema. Com vocês, a incrível técnica visual de Alfonso Cuarón!

A ação do ambiente

Se você assistiu a filmes como Gravidade (2013) ou o brilhante Filhos da esperança (2006), percebeu que a técnica visual de Cuarón se destaca por longas tomadas, em que vários elementos são percebidos ao mesmo tempo, recriando quase que identicamente o passo da vida real, em que, ao lado de uma ação, desenrolam-se várias outras.

Diz Jacques Aumont, um teórico da imagem e da estética do cinema:

“A visão é, antes de tudo, um sentido espacial. […] a maioria dos estímulos varia com a duração ou ocorre sucessivamente […]”

Se observarmos os enquadramentos de Cuarón, perceberemos uma quantidade de estímulos visuais que fazem, concordando com o pensamento de Aumont, com que “nossos olhos estejam constantemente e movimento.” No caso de filmes como Filhos da esperança, esse tipo de estímulo visual sem corte aumenta a tensão, confere detalhismo e cria um realismo forte, o que deu muita verossimilhança ao contexto distópico no qual o filme se passava.  Podemos citar Grandes Esperanças (1998) e Paris, te amo (2006) como mais dois exemplos da gramática de Cuarón.

Até mesmo no filme Y tu mama también, Cuarón, em eterna parceria com o premiadíssimo (e também expulso, junto com Cuarón, da faculdade de cinema do México) Emmanuel Lubezki, já utilizava a técnica do long shot para criar sua atmosfera realista e tensa em seus filmes ( a cena do jukebox). Lubezki foi ganhador da estatueta de melhor fotografia com Gravidade, O Regresso e Birdman, além de ser indicado ao prêmio desde 1996, com o filme A Princesinha. A parceria entre os dois é coerente com o motivo de sua expulsão da escola de cinema. Segundo Cuarón, os dois saíram por “não concordar com o jeito que se estava a fazer filmes” e não querer “se curvar a certos procedimentos que a faculdade tinha na época”.

Para alguns, a direção de Cuarón foi um divisor de águas na franquia Potter e nos filmes geek com um teor mais sério.

Não dá, ainda, para deixar de falar sobre o mais comedido de seus filmes, embora um que revolucionou os filmes geek pra sempre: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.

Alguns dizem que a direção de Cuarón e o tom que ele deu ao filme estabeleceram as bases para todos as demais adaptações dos livros de J.K Rowling nos anos seguintes e para os filmes voltados para o público jovem e adulto. Ali, também temos a tomada longa, mais tímida, mas ainda lá, como na introdução dos novos professores em Hogwarts, em que nenhuma tomada é fixa, sempre longa com uma steadycam dinâmica.

E como não poderia deixar de ser, encerramos esta volta de Olhar crítico com um vídeo com a técnica visual de Alfonso Cuarón, para que você tenha uma amostra de tudo o que falamos.

Não podemos experimentar nada além do presente, não podemos viver em qualquer outro segundo, e entender isso o melhor que podemos nos leva à vida eterna.”

 

Até a próxima semana!

 

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