A importância do Monstro do Pântano, de Alan Moore, na vida de um roteirista de quadrinhos

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Os super-heróis, desde a minha mais tenra infância, sempre me atraíram e foram os responsáveis por despertar em mim o gosto pela leitura. Sem eles, provavelmente eu teria demorado ainda mais para que a literatura entrasse em meu cotidiano. Mas a verdade é que, naquele início, o que mais me chamava a atenção eram os desenhos maravilhosos, as multi-cores de seus heróis e, é claro, a ação.

A história em si, o fio condutor que se desenrolava para que tudo aquilo que eu vibrava acontecesse de fato, era, para mim, um novelo invisível, algo que eu não conseguia distinguir ou diferenciar dos desenhos.

Não tenho certeza, mas acho que isto é o que acontece com a maioria dos leitores. Eles são enfeitiçados pelos desenhos, mas, por não entender a cadeia produtiva de uma história em quadrinhos ou, simplesmente, por não se importar com isto, acabam esquecendo que roteiro e desenho são duas coisas distintas, mas que trabalham harmoniosamente para atingir o mesmo fim: a satisfação do leitor.

Some a isto o fato de que eu, talvez pela minha ascendência libriana, sempre fui um admirador da estética greco-romana que visava a valorização do realismo e a busca pela perfeição e encontrava nos corpos perfeitos dos super-heróis e heroínas, a sublimação visual que tanto me agradava. Para mim era a combinação perfeita.

Os heróis seguiam os ideais greco-romanos de perfeição física.Foi lá por meados dos anos 80 que eu me deparei com uma coisa estranha para mim até então. Era uma hq que tinha uma história tão interessante que me fez esquecer momentaneamente os desenhos tão fora do padrão ao qual eu estava acostumado até aquele momento.

Era uma história escrita por um tal de Alan Moore e ilustrada por um tal de  Stephen Bisset (dois nomes que, naqueles dias, não significavam absolutamente nada para mim). A história, que foi publicada na revista Novos Titãs #4 (editora Abril, Julho de 1986), era de um personagem chamado Monstro do Pântano – que também era igualmente desconhecido para mim – e tinha o título de “Lição de anatomia”.

A história quase não tinha ação, mas seguia crescendo em tensão e expectativa até chegar num clímax aterrorizante e catártico. O que mais me chamou a atenção foi o texto que permeava a história, mas, também, a gradativa construção narrativa que se desenrolava diante de meus olhos. Lembro que, mesmo tendo na mesma revista uma história dos Novos Titãs escrita por Marv Wolfman e ilustrada pelo genial George Pérez, a história do Monstro do Pântano cravou suas garras no meu cérebro e me fez prestar mais atenção nos roteiros e roteiristas a partir de então.

Os desenhos de Stephen Bisset eram um verdadeiro delírio visual e meus olhos não estavam preparados para isto.

 

Com isto, eu passei a aprender o nomes dos roteiristas que escreviam as histórias em quadrinhos e comecei a identificar aqueles que se destacavam mais do que os outros na arte de contar suas histórias. Comecei, mesmo que de forma rudimentar, entender que uma boa história tem que ter todo um desenvolvimento para que possa atingir seu momento mais alto de forma satisfatória e que não se podia jogar tudo de qualquer forma para o leitor apenas para apresentar as cenas de ação.

A investigação a respeito dos roteiristas me fez avançar, mas também me fez retroceder, procurando nas histórias que já havia lido, a identificar o por quê do sucesso de certas séries que eram escritas por Chris Claremont (X-men), Frank Miller (Demolidor), Keith Giffen e J.M. DeMatteis (Liga da Justiça América), Marv Wolfman (Novos Titãs), Denny O’neil (Lanterna Verde e Arqueiro Verde) e, principalmente, Sant Lee (capitão América, quarteto fantástico, thor e tantos outros), o grande mestre da casa das ideias .

Embora eu ainda não soubesse, estava plantando a semente do roteirista que eu viria a ser um dia ao ler estas hqs com os olhos brilhando pelos desenhos, mas, também, vasculhando atento às entranhas dos roteiros produzidos por escritores tão geniais.

E é por isso que, hoje em dia, eu considero o roteiro a alma de uma história em quadrinhos. Quando o desenho é bom, mas o roteiro é ruim, é como se tivéssemos um livro com uma bela capa, mas sem nenhum conteúdo. Porém, quando temos um roteiro realmente bom, ele consegue se sobressair mesmo com desenhos ruins por que essa é a verdadeira essência por trás da palavra “HQ”: o “H” de Histórias.

E é por isto que eu sempre digo e repito: “Quadrinhos não é só desenho!”

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