Olhar Crítico especial Pantera Negra: Steve McQueen e o Minimalismo

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Certa vez, lendo uma matéria sobre natureza e coisas do tipo, naquelas buscas sem pretensão que se faz de madrugada na internet, deparei com a frase “Beauty lies in details” – A beleza jaz nos detalhes. Essa frase me faz lembrar de um diretor, dos mais novos, que faz do detalhismo e minimalismo das ambientações sua marca principal, claro que aliado a uma direção visual perfeita.

Celebrando a estreia de Pantera Negra no dia 15 e o evento MaxConPE no dia 24 deste mês, Olhar Crítico abre uma série de especiais com diretores negros e suas técnicas de direção, começando por uma celebridade recente. Conheçam Steve McQueen.

 

Color Fields

A parede da cela tem uma figura abstrata que carrega algo ambíguo definido pelo entorno.

Trazendo da pintura dos anos 1950, as ambientações de Steve McQueen se utilizam, especialmente em seu primeiro filme, Fome (2008) – que eu pensava que era baseado em um livro de Knut Hamsum, mas mordi a língua pra melhor –  de uma técnica chamada pintura de campo, que consiste em uma área plana formando uma figura monotônica que dá menos ênfase ao gesto e à própria cor do que à textura e à forma.

Os ilustradores conhecem, e muito bem, uma variância dessa técnica, que é o hard-edge, príncipios de soft-light, hard-light, embora não seja exatamente a mesma coisa. McQueen a utiliza para atribuir significado a coisas aparentemente sem importância atrelado ao gesto de pessoas que compõem o ambiente. Um belo exemplo no filme Fome é a mancha na cela de Bobby Sands (Michael Fassbender). Uma mancha circular, provavelmente feito pelo interno para não perder sua sanidade, poderíamos pensar. Mas a ambientação, a entrada do funcionário,  retirada da máscara, o olhar perplexo, movimentos todos que conferem a uma textura na parede uma ambiguidade que capta o olhar do espectador, algo minimalista adentra em nossa imaginação e provoca sensações que não sabemos definir. Nos filmes que seguiram Fome, como Shame (2011). Mas como dito no início da coluna de hoje, Steve McQueen é belo nos detalhes. E outras duas técnicas que utiliza fazem bem esse trabalho…

 

Tomadas longas e espaço negativo

Já falamos aqui sobre tomadas longas, tomando com exemplo o trabalho de Alfonso Cuarón. Com McQueen a coisa é mais sútil, mais intimista. Pegando 12 anos de escravidão (2014), na cena em que Solomon Northup é pendurado por uma corda após seu linchamento, há uma quantidade mínima de elementos na cena e nada mais do que 1 min e 26 segundos ininterruptos com ele na ponta dos pés suspenso pela corda. Agonizante, inquietante, e porque o minimalismo da cena, quase como uma pintura plana, direcionam o olhar ao processo do color field vivo de McQueen.

 

 

Vejam como o entorno com as pessoas destacam a forma dos animais? Esse é um uso do espaço negativo.

Já em Shame, que também usa livremente de tomadas longas, há a presença de outra técnica muito comum aos ilustradores e fotógrafos, que é o espaço negativo. Sendo bem simplório, o espaço negativo é quando você desenha ou fotografa apenas o entorno de um objeto, dando a ideia do objeto em si, como na imagem ao lado. Em Shame, o espaço negativo é feito com o foco da câmera, tirando o foco do protagonista, novamente Fassbender, para o movimento, o entorno formando e delineando a ação.

 

Nem falarei dos roteiros dos filmes dirigidos por Steve McQueen, que mereceriam um Olhar Crítico a parte. Deixo vocês com um tributo ao minimalismo. Reparem, logo na cena inicial, na água formando uma pintura no chão. E lembrem-se: a beleza está nos detalhes.

 

 

 

Até a próxima semana!

 

 

 

 

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