Análise | Eu, Tonya

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O espetáculo midiático que entorna esportes de grande visibilidade e com um cunho artístico latente faz com que a mera existência do talento nato não seja o suficiente. É preciso ter uma imagem vendível, posturas bem vistas e encarnar o papel do esportista que traz manchetes para os tabloides. O resultado disso geralmente é, mesmo que por trás das câmeras, dor e sofrimento. I, Tonya consegue relatar a problemática de forma clara sem passar a mão na cabeça de ninguém: é apenas a narrativa da veracidade dos fatos.

A construção de uma figura perfeita é ainda mais difícil de ser satisfeita quando perseguida por uma mulher, algo que o filme retrata sem condescendência ou enfoques exagerados. Independente da profissão em que atua, a mulher precisa se esforçar mais, trabalhar mais duro e, ainda, passar a fama de boa moça. A rebeldia geralmente só cai bem quando vestida por homens – mulheres não combinam com essa roupagem.

A trama mostra como a patinadora Tonya foi, desde o início, tratada com hostilidade pela mãe e, consequentemente, passou a entender que a agressão era uma forma convencional de linguagem (algo pelo qual inúmeras mulheres passam). Ela se tornou agressiva, difícil de lidar, odiada por muitos. Seu talento nato nas pistas de gelo era ofuscado pela inexistência dos atributos geralmente atrelados às queridinhas que os EUA escolhem para amar: suavidade, voz baixa, vocabulário polido e trajes impecáveis. Tonya contrariava todos os estereótipos, mas possuía uma característica que o seu país, mesmo a contragosto, não podia esconder: um talento enorme.

A intensidade dos personagens, das brigas, do desenrolar da história que narra a vida atribulada e cheia de erros e infortúnios de Tonya traz atuações brilhantes e diálogos memoráveis. Margot Robbie encarna a impetuosidade da personagem dúbia com tal força que após uma das fervorosas cenas de embate com Sebastian Stan (que interpreta seu marido, Jeff Gillooly, e também brilha nos momentos de ódio e descompensar emocional), o bateu de verdade e saiu sem conseguir se desvincular do roteiro, sendo por ele seguida.

É necessário trazer o devido enfoque, ainda, à atuação impecável de Allison Janney, merecedora de todos os prêmios que conquistou até agora. Com falas carregadas de ódio, hostilidade e agressividade, a atriz representa LaVona Harding com toda a complexidade de suas muitas camadas – a mãe capaz de traumatizar e ao mesmo tempo impulsionar os sonhos.

Mesmo que de forma implícita, I, Tonya nos traz a história de uma mulher forte, geniosa  e cercada por uma audiência levemente sádica. Você pode não patinar e não viver sob os holofotes, mas não é difícil sentir empatia pela narrativa em que a mulher que não encarna a figura perfeita e corriqueiramente cai nas armadilhas de um histórico familiar traumatizante acaba tendo as chances de uma carreira promissora ceifadas por más escolhas e um péssimo cenário.

 

Nota: 

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